O PÉ FRIO NÃO FALHA. QUEM FALHA É A SORTE!
Desembargador José Ricardo
Porto.
Há pessoas que chegam trazendo alegria, esperança e boas notícias. Outras chegam trazendo preocupação. Mas existe uma categoria muito especial, conhecida desde os tempos mais remotos: o famoso pé frio.
O pé frio é uma figura curiosa. Não precisa fazer absolutamente nada. Basta aparecer. Se uma coisa está dando certo, começa a dar errado. Se um projeto está prosperando, surgem dificuldades. Se uma candidatura está crescendo, basta ele anunciar apoio para o entusiasmo começar a desaparecer. É impressionante!
No futebol, então, o pé frio é uma verdadeira calamidade. O time está vencendo por três a zero, jogando um futebol maravilhoso. De repente, ele chega, senta na arquibancada e anuncia, cheio de confiança: “Hoje ninguém tira essa vitória da gente!” Pronto. É o suficiente. O adversário empata e, nos acréscimos, vira o jogo.
Há torcedores que, ao identificarem um pé frio na arquibancada, começam imediatamente a procurar outro lugar. Alguns chegam a pedir, educadamente, que ele torça pelo adversário. É uma tentativa desesperada de neutralizar os efeitos da sua presença. Há quem diga que o melhor reforço para um time é convencer o pé frio a vestir a camisa do rival.
Na política, o fenômeno também merece estudos aprofundados. Existem apoios que representam prestígio, força e entusiasmo. Outros provocam uma preocupação silenciosa. O candidato está bem nas pesquisas, a campanha cresce, os aliados comemoram. Até que surge o pé frio, sorridente, anunciando apoio incondicional. É quando os mais experientes começam a fazer as contas novamente.
E o pior é que o pé frio não percebe. Pelo contrário, acredita que sua presença é indispensável. Gosta de aparecer, discursar, aconselhar e anunciar vitórias antecipadas. Quanto mais fala, mais os outros se preocupam. O pé frio não perde a esperança. Quem perde são aqueles que acreditam nas suas previsões.
No casamento e nos relacionamentos amorosos, o pé frio também não consegue escapar do próprio destino. Casa uma vez, não dá certo. Apaixona-se novamente, começa outro relacionamento, depois mais um, e assim vai, sempre acreditando que encontrou, finalmente, o grande amor da sua vida. Mas, quando tudo parece caminhar para a felicidade, alguma coisa acontece e o romance desanda. No final, além das desilusões amorosas, ainda pode terminar com uma ou duas pensões alimentícias para pagar. É uma criatura que não perde a esperança no amor, mas corre o risco de perder boa parte do salário. E o mais curioso: depois de tudo, continua procurando uma nova paixão. O coração permanece disponível; o contracheque, nem tanto!
O problema se agrava quando os pés frios resolvem andar em grupo. Um só já inspira cuidados. Dois representam perigo. Três exigem providências urgentes. Mas quatro ou cinco pés frios reunidos constituem uma verdadeira emergência nacional! É aconselhável suspender inaugurações, adiar decisões importantes e, sobretudo, não anunciar nenhuma vitória. Se resolverem viajar juntos para apoiar uma causa, recomenda-se, por precaução, verificar até a previsão do tempo.
E não pensem que o fenômeno é exclusivamente brasileiro. O pé frio atravessa fronteiras, frequenta aeroportos, participa de acontecimentos internacionais e acompanha disputas pelo mundo afora. É uma espécie de patrimônio universal do azar. Não precisa dominar outros idiomas. Sua fama dispensa tradução. Onde houver uma expectativa de vitória, haverá sempre a possibilidade de aparecer alguém disposto a torcer por ela e, involuntariamente, produzir o resultado contrário.
Existem também os pés frios empresariais. Basta entrarem numa sociedade para os negócios começarem a enfrentar dificuldades. O empreendimento era promissor, os números animadores, o futuro brilhante. Chegou o pé frio, e até o contador começou a ficar preocupado. Se ele anunciar que o negócio vai crescer, é prudente conferir o saldo bancário.
Mas é preciso fazer justiça a essas criaturas. Talvez não tenham culpa de absolutamente nada. Afinal, ninguém escolhe nascer pé frio. É uma condição que a sabedoria popular atribui a determinadas pessoas, muitas vezes injustamente. A ciência, até hoje, não conseguiu comprovar a existência dessa extraordinária capacidade de transformar expectativas em decepções.
O mais curioso é que o pé frio nunca perde a confiança. Depois de cada derrota, anuncia que a próxima vitória será extraordinária. E continua presente, animado, participativo e disposto a colaborar. Não desiste jamais. É uma perseverança digna de admiração, embora nem sempre seja recebida com entusiasmo.
No fundo, o pé frio é também um personagem do nosso folclore cotidiano. Todos conhecemos algum. Há quem acredite, quem duvide e quem prefira não arriscar. E há, naturalmente, aqueles que são pés frios e não sabem. Esses são os mais perigosos, porque vivem espalhando otimismo por onde passam, anunciando vitórias, prometendo maravilhas e distribuindo esperanças. Mas basta chegarem perto para o azar aparecer e o desastre se anunciar. É impressionante: chegam com as melhores intenções, mas parece que o infortúnio vem sempre de carona!
Ser pé frio não é propriamente um defeito, muito menos uma escolha. É uma condição misteriosa que acompanha certas criaturas pela vida afora. O pé frio pode até ser uma excelente pessoa, generosa, bem-intencionada e cheia de boas ideias. O problema é que, por onde passa, parece carregar a infelicidade debaixo do braço. Não procura o azar, não deseja o fracasso de ninguém, mas o infortúnio insiste em acompanhá-lo.
Trata-se, afinal, de uma verdadeira personalidade iceberguiana, uma personalidade polar, capaz de transformar o mais caloroso entusiasmo numa autêntica geleira de decepções. O sujeito pode viver nos trópicos, debaixo de um sol de quarenta graus, mas carrega consigo um inverno permanente. É praticamente um iceberg ambulante, com a diferença de que, ao contrário dos icebergs, não precisa atingir nenhum navio para provocar um naufrágio.
E, para encerrar, uma recomendação: se você conhece um pé frio, trate-o com carinho, respeito e consideração. Afinal, ele não tem culpa da fama que carrega.
Mas, se estiver prestes a comemorar uma grande vitória, por prudência, não o convide para a festa antes do resultado.
Porque, como ensina a sabedoria popular, uma coisa é desafiar a sorte. Outra, muito diferente, é reunir quatro ou cinco pés frios e esperar que tudo dê certo!
E não se esqueça: o pé frio pode até não acreditar em azar. O problema é que o azar parece acreditar muito nele!
