MAS NÃO É JUSTO, AUGUSTO ? Bolsonaro arrebata direita jovem e nordestina com ideologia da pistola ‘pá, pá, pá’

Bolsonaro arrebata direita jovem e nordestina com ideologia ‘pá, pá, pá’

Os gritos ricocheteiam no saguão do aeroporto de Natal (RN). Vêm de centenas, talvez milhares

de pessoas.

Na maioria, jovens. Muitos são universitários que votaram pela primeira vez quatro anos atrás,

e em Dilma Rousseff. Hoje dizem carregar duas coisas: um fardo (já ter eleito o PT) e um herói

em seus braços.

A multidão o levanta no ar e, com uma bandeira do Brasil estendida no fundo, entrega-lhe

balões verde-amarelos para estourar. O homem que tanto cativa essa juventude nordestina

é Jair Messias Bolsonaro, 62.

A cena que a Folha acompanhou no último dia 8, ao viajar de Brasília à capital potiguar

com o deputado do Partido Social Cristão, não é um ponto fora da curva. “Bolsonaro é

recepcionado no Recife como popstar”, cravou o “Diário de Pernambuco” já em 2015.

Dois meses atrás, a mídia piauiense registrou o alvoroço que se seguiu ao pouso do parlamentar

em Teresina, onde uma jornalista local foi repelida aos berros de “mortadela!” e “Cinthia Lixo!”

pelos militantes pró-Bolsonaro.
A estes foi dado o apelido de “BolsoMinions”, referência às criaturas amarelas que gostam

de ajudar vilões na animação “Meu Malvado Favorito”.

Eles se veem de outra forma: uma nova e orgulhosa direita que se cansou “do discursozinho metido

a besta da esquerda que prefere os marginais às verdadeiras vítimas”, nas palavras do “ex-marxista”

Adriano, 17, e agora quer um presidente “que fala o que muita gente no fundo pensa”, diz a estudante

de direito Marina Medeiros, 22.

Bolsonaro foi a Natal a convite da União Nordestina de Produtores de Cana. A matéria-prima

da viagem, contudo, foi outra: política. Em evento num hotel, é instado a apresentar sua visão para o país.

Dança com as palavras para não se assumir candidato à Presidência (a lei eleitoral

proíbe propaganda antecipada).

“Tenho certeza de que ano que vem vou vestir a faixa…” Pausa dramática. “… do Botafogo campeão”.

É o time do coração do paulista de Campinas radicado no Rio. É também um subterfúgio para

tangenciar uma ambição tratada abertamente nos bastidores.

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Luciano Cartaxo

Bolsonaro quer ser presidente do Brasil e acredita que a maré está a seu favor. Tem usado

a cota parlamentar, que reembolsa despesas do mandato, para viagens afins à de Natal.

A Câmara veta “gastos de caráter eleitoral”.

O deputado pede que a reportagem confira se o translado foi debitado de sua verba,

o que foi impossível fazer, pois as contas do mês de junho ainda estão em aberto.

“E se eu estiver gastando, vai estar sendo muito bem gasto este dinheiro da Câmara,

pois estou em condições de discutir com muita humildade questões nacionais”, diz,

acrescentando

que na quinta-feira em que se deslocou ao Nordeste “não teve sessão em Brasília”.

O que o sistema da Câmara mostra: de janeiro a meados de junho de 2017, Bolsonaro pediu

reembolsos que somam R$ 76.173,98. No período, foi o 487º menos “gastão”

entre 542 deputados

(o cálculo é maior do que os 513 membros da Casa pois considera aqueles que já

deixaram o cargo

e os suplentes que assumiram).

 

Em pesquisa Datafolha de abril, pontuou 14% e 15% (em cenários com diferentes candidatos),

empatado com Marina Silva e só atrás de Lula. É no Nordeste que tem seu pior desempenho

regional (10%).

Mas é preciso levar em conta que estamos no bastião lulista por excelência, diz o estudante

de direito Alef Souza, 22. Ele conta que votou em Levy Fidelix no último pleito e em Dilma em 2010.

“Nem sempre fui de direita.” Agora que é, ganha cusparada na rua (aconteceu quando usava

um bottom escrito “a direita vive”).

Aluno de universidade federal, Alef acha que os colegas esquerdistas praticam um

“comunismo de fachada”, já que “só frequentam lugares da alta sociedade” potiguar. Fora

a “libertinagem” que aborrece o filho de militar. “A esquerda se droga, transa com animal, com gente do mesmo sexo.”

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Marina, a que gosta da falta de papas na língua de Bolsonaro, reclama de preconceito que parte

justamente de quem acusa de radicalismo seu candidato. Não gosta da ideia de ter que gostar de Lula

só por ser de onde é. “Falam que sou uma nordestina burra por pensar diferente.”
“Sempre falo: lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive fora de feminismo”, afirma Marina, que

se afeiçoou por uma das propostas de Bolsonaro –castração química para estupradores.

Ela aponta um garoto carregando uma faixa (“eu sou gay e Bolsonaro me representa”) para argumentar

que uma minoria pode, por que não?, ser conservadora.

No Facebook, Marina recentemente postou uma fala falsamente atribuída a Hitler: “Nós somos socialistas,

nós somos inimigos do sistema econômico capitalista” (era na verdade de outro líder nazista).

O fato de Bolsonaro exaltar a ditadura militar não a perturba. Nem a ela nem a Adriel, 16, fã de

Michael Jackson.

 Enéas Carneiro e do deputado. “Meus avós pegaram o regime do começo ao fim. Geral torturado?

Dizem que não viam isso. E que naquele tempo se podia andar na rua sem medo de ser assaltado.

Tem outro ponto também: ninguém fala que guerrilheiro também fez coisa errada.”

‘BOLSONARISMO’

Na palestra, o convidado desfia seu corolário conservador de praxe. Defende “um general

que tivesse comandado colégio militar” no Ministério da Educação.

Chama quatro mulheres à frente e lhes dá duas alternativas: se pressentissem “maldade” num homem.

prefeririam dizer (imita voz feminina) “olha aqui a lei do feminicídio!” ou “sacar

uma pistola e ‘pá, pá, pá’”.

A segunda opção é unânime.

“Ninguém vai combater a violência abraçando a lagoa Rodrigo de Freitas ou soltando bolhinha

de sabão com fumaça de maconha”, afirma, sob olhos vigilantes de seguranças com camisas

que traziam o rosto do parlamentar e as palavras “honra, moral, ética”. Eles foram contratados

pelo grupo direitista Radar-RN, que em seu site se diz “em luta permanente contra a CORRUPÇÃO

e os MAUS COSTUMES”.

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Já para o final, diz que, “se um dia for candidato, não vai ser ditadura”. Depois compara a Comissão

da Verdade, que teve sete integrantes para investigar crimes do regime militar, como tortura,

a uma “cafetina que quer escrever sua biografia, escala sete prostitutas e, no fim, é canonizada”.

O público aplaude e, vez ou outra, irrompe em gritos de “a nossa bandeira jamais será vermelha!”.

Bolsonaro sempre ostentou seu orgulho pela farda. À Folha, ainda no embarque em Brasília, diz que o

serviço militar é bom porque, entre outras razões, ensina recrutas a usar “sr. e sra.” e a ter higiene

–é pela falta dela “que mil jovens têm seus pênis amputados por ano”, lamenta, citando

a Sociedade Brasileira de Urologia.

Ainda no aeroporto da capital federal, o deputado é tratado como sensação. Mais de 50 pessoas

pedem uma selfie. “De vez em quando tem uns ‘xingões’”, alerta. Não teve.

Só um rapaz o critica pelo voto a favor de legalizar a vaquejada, antro de maus-tratos para

entidades pró-direitos dos animais. “Mas disse que esse tipo de boi tem até massagista.

Até eu queria ser esse boi!” O interlocutor cedeu.

Um senhor de barba grisalha se aproxima. “Sai pra lá, Karl Marx!”, brinca com

Carlos Alberto Gomes, 63.

Reencontraram-se por acaso, quatro décadas após se formarem cadetes na Academia Militar das Agulhas

Negras.

Na época, não tinha essa de Bolsonaro, diz Gomes. “Ele era um atleta sem comparação.

A gente só o chamava de K-valão.”

Já em Natal, o militar de reserva que chama seus cinco filhos pelo número (“01, 02, 03, 04, 05!”)

conta que às vezes se pergunta: “O que estou fazendo é coragem ou loucura? Prefiro

dizer que é patriotismo”. Seus seguidores voltam com o coro de “MITO! MITO!”.

Alguns usam uma camisa onde se lê: “Melhor Jair se Acostumando”

Fonte: uol/folha

Comentários

  1. Por Luiz Pimenta

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  2. Por RAMIRO

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