
Em Ingá, no Agreste paraibano, a história não está preservada apenas nas famosas inscrições rupestres da Pedra do Ingá. Ela também ganha forma nas mãos da artesã Jacira da Luz Garcia, que há anos dedica seu talento à produção de peças em cerâmica inspiradas no maior patrimônio arqueológico da Paraíba.
Geógrafa de formação e apaixonada pela educação, Jacira dedicou cerca de 40 anos de sua vida ao magistério. Durante esse período, utilizou a sala de aula como instrumento para despertar nos estudantes o interesse pela preservação da história e da identidade cultural do município. Após encerrar sua trajetória como professora, encontrou na argila uma nova maneira de continuar esse trabalho.
Há aproximadamente oito anos, passou a atuar como ceramista, produzindo peças artesanais que reproduzem símbolos e elementos inspirados nas inscrições da Pedra do Ingá. Mais do que objetos decorativos, suas obras carregam um profundo significado histórico e cultural, tornando-se verdadeiros representantes da identidade paraibana.
Uma arte feita com respeito à natureza
O trabalho desenvolvido por Jacira também se destaca pelo compromisso com a sustentabilidade. Suas peças não recebem tintas ou corantes industriais.
A coloração é obtida de maneira totalmente natural, utilizando pigmentos minerais extraídos de arenitos coletados na região da praia de Carapibus, no litoral sul da Paraíba. Essa escolha preserva a autenticidade da cerâmica e reforça a ligação entre arte, natureza e território.
Cada peça produzida mantém um processo artesanal cuidadoso, valorizando técnicas tradicionais e respeitando os materiais oferecidos pela própria natureza.
Reconhecimento da arte paraibana
A dedicação e a originalidade do trabalho renderam reconhecimento em diversos editais públicos e exposições culturais.
Entre os destaques está a participação na mostra “Pedra Poema”, realizada na Estação Cabo Branco, em João Pessoa, onde suas cerâmicas dialogaram com música contemporânea e poesia, evidenciando a riqueza do patrimônio arqueológico paraibano sob diferentes formas de expressão artística.
Vinculada ao Programa do Artesanato Paraibano (PAP), Jacira demonstra que o artesanato vai muito além da produção de lembranças para turistas. Cada obra leva consigo parte da história, da ancestralidade e da identidade cultural de Ingá.
Ancestralidade moldada na argila
A própria artesã resume a essência de seu trabalho em uma frase que revela sua missão:
“Eu busco uma ancestralidade nos dois sentidos: a ancestralidade de trabalhar a cerâmica da forma mais natural possível e a ancestralidade de buscar os resquícios de nossos ancestrais. É o meu trabalho chegando até as pessoas desta forma.”
Essa filosofia faz com que cada peça produzida seja muito mais que um objeto artesanal. Trata-se de um elo entre o presente e um passado milenar gravado nas rochas da Pedra do Ingá.
Um patrimônio que ultrapassa as rochas
A Pedra do Ingá continua sendo um dos maiores sítios arqueológicos do Brasil, mas sua história também permanece viva graças a pessoas como Jacira da Luz Garcia.
Ao transformar a argila em memória, ela contribui para preservar, divulgar e valorizar um patrimônio que desperta a curiosidade de pesquisadores, estudantes e turistas do mundo inteiro.
Seu trabalho mostra que a cultura não está apenas nos monumentos históricos, mas também nas mãos daqueles que dedicam a vida a manter viva a identidade de um povo. Em cada peça moldada, Jacira eterniza fragmentos da ancestralidade paraibana e reafirma o papel do artesanato como ferramenta de educação, preservação e valorização da história de Ingá.
Autor: Zenildo Bismark Rodrigues da Luz
Fonte das informações: Revista Arte em Cada Parte (41º Salão do Artesanato Paraibano) e informações públicas sobre o trabalho da artesã Jacira da Luz Garcia.