CLUBE DA HISTORIA EM : Madoulina, a menina que queria ir à escola


Deixem-me contar-vos a história de quando eu era uma ave que deixa o seu ninho muito
cedo e regressa já tarde ao anoitecer.
O meu nome é Madoulina. Babo, o meu irmão mais novo e eu vivíamos com a nossa mãe numa
pequena casa no bairro de Mokolo, em Yaoundé, nos Camarões. A minha mãe era pobre, mas de grande
coragem. Ia ao mercado todos os dias para vender produtos frescos e bolinhos fritos. Eu tinha de a
ajudar. Por isso, todas as manhãs Babo ia para a escola, mas eu ficava sempre em casa.
A minha mãe acordava-me às seis horas da manhã.
— Levanta-te, Madoulina, são horas de ir vender os bolinhos
fritos — dizia sempre.
Por vezes, apetecia-me dormir um pouco mais, mas não queria
desobedecer. Levantava-me então. Depois, com um tabuleiro de
bolinhos fritos à cabeça, saía para a rua. Caminhar por toda a cidade
a vender bolos fritos não era fácil mim, pois ainda era muito nova.
Uma tarde, quando a escola estava já no fim, um dos alunos
começou a provocar-me.
— Vejam, a irmã mais velha do Babo já anda a vender bolinhos,
tal como a mãe. Será que já não quer ser médica?
E começámos a discutir.
Subitamente, um homem aproximou-se de mim e pediu alguns bolinhos.
Embrulhei alguns para ele levar.
D
— Como te chamas, pequena? — perguntou.
— O meu nome é Madoulina — respondi.
— Quantos anos tens?
— Oito.
— Ah! Chamo-me Sr. Garba. E sou o novo professor.
— Então o senhor é o professor do meu irmão Babo? — perguntei.
— Sim, sou. Mas nunca te vi na escola. Porquê?
— Hum…bem… eu devia ter começado o primeiro ano, mas a minha mãe é pobre. O meu pai
abandonou-nos, e a minha mãe está a criar-nos sozinha. Ela preferiu que fosse o Babo a ir à escola.
Quanto a mim, sou rapariga, e quando crescer vou casar. Vou cuidar do marido e dos meus filhos.
— Até pode ser, mas a escola é igualmente importante para todos. As raparigas, tal e qual como
os rapazes, têm que receber educação. Vem ter comigo aqui, amanhã, depois da escola, e leva-me até
tua casa. Gostava de falar com a tua mãe.
No dia seguinte fiquei à espera do Sr. Garba. Estava já a anoitecer quando ele chegou.
Caminhámos ao luar, em silêncio, passando por um pequeno campo de futebol até à rua onde eu
morava. Pilhas de lixo amontoavam-se aqui e ali, onde cães esfomeados vinham comer. A maioria das
casas era velha. Algumas estavam construídas com pranchas de madeira, perfeitamente enquadradas
nos contentores de lixo. Era a zona pobre da cidade. As pessoas chamavam-lhe “Mokolo-Elobi”— a
zona dos pântanos.
— Cá estamos. É aqui que eu vivo.
Entrámos. A minha mãe ficou surpreendida por me ver chegar tão tarde e acompanhada.
Perguntou-me quem era o nosso convidado.
— É o professor do Babo. Senhor Professor, esta é a minha mãe.
Depois das apresentações, dei à minha mãe os ganhos do dia.
Depois fui dar banho ao meu irmão.
O Sr. Garba tentou convencer a minha mãe a mandar-me à escola. Nenhum dos dois parecia
estar a entender-se. Acabei de dar banho ao Babo, e voltei
rapidamente para a sala.
A minha mãe estava aborrecida. Pôs-se de pé.
— Meu caro senhor — disse — os seus argumentos não me
interessam. O papel de uma mulher é o de tomar conta do lar.
— Tudo bem, minha senhora — disse-lhe ele. — Mas se a
Madoulina fosse à escola, poderia cuidar ainda melhor de um lar.
Além disso, todas as crianças têm direito à educação —
raparigas e rapazes.
Estas palavras foram direitas ao meu coração. Fizeram-me
sentir feliz, se bem que não tenham feito desaparecer as sombras que nele existiam. “A culpa não é
dela,” pensava eu. A minha mãe nunca tinha ido à escola. Ela apenas precisava de compreender o que é
a educação.
— Os tempos mudaram — atrevi-me a dizer à minha mãe. — O Sr. Garba tem razão. Eu quero ir
à escola, tal como as outras crianças da minha idade. Gostaria de ser útil e de tomar conta de ti, por
exemplo, quando ficares doente.
A minha mãe estava a ficar cada vez mais perturbada.
— E quem me vai ajudar na venda dos bolinhos fritos se a Madoulina já não tiver tempo para me
ajudar?
— Tenho uma ideia! — disse o Sr. Garba. — Se os bolinhos fritos são o único problema, posso
arranjar-vos um contrato assinado pelo diretor da escola. A escola compra os bolinhos que Madoulina
haveria de vender, e dá-os aos nossos alunos. Vão combinar bem com as sanduíches que todos comem
nos intervalos.
Esta ideia agradou à minha mãe. E acabou por aceitar a oferta do Sr. Garba.
Que alegria! Ia regressar à escola. Ia poder de novo brincar com todas as minhas amigas e,
melhor que tudo, o meu sonho de ser médica poderia tornar-se
realidade. Era o começo de uma vida nova!
E pensei nisto durante toda a noite.
De manhã, a minha mãe levou-nos, a mim e ao Babo até à escola. O
Sr. Garba deu-me uma sacola cheia de cadernos. Depois de ter faltado
três semanas, tinha que me pôr a par dos outros. Havia muitas lições
para copiar e aprender. O dia era duro, e eu chegava a casa à noite
completamente exausta.
Mas o Sr. Garba não desistia de nós. Ia saber de nós a casa, todas
as noites. Era muito gentil e amistoso. No final de cada semana ele pagava à nossa mãe as contas dos
bolinhos fritos. Tornou-se um pai para nós!
Na escola consegui acompanhar o resto da turma.
Até ajudava os meus colegas nos seus trabalhos de casa quando tinham problemas…
No fim do período, o meu irmão Babo e eu passámos de ano.
E a nossa mãe convidou o Sr. Garba para vir festejar connosco.
Como nos sentíamos felizes!
Joël Eboueme Bognomo
Madoulina: A girl who wanted to go to school
Pennsylvania, Boyds Mills Press, 1999
(Tradução e adaptação)

Comentários

  1. Por Roberto Justino

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  2. Por Cláudio

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