São 22h10 do dia 19 de setembro. Só escrevo a crônica no sábado. E hoje, confesso, tentei escrever sobre a Semana Nacional de Trânsito de 2026.
Mas os blogs anunciam mais uma tragédia.
Mais um acidente no trecho da BR-230 entre Juazeirinho e Soledade. Três vítimas fatais.
E eu fico pensando: há muita coisa a ser feita. Mas as pessoas continuam morrendo.
Nos finais de semana, nem precisamos mais de uma análise preditiva sofisticada para saber que determinados trechos, horários e comportamentos concentram riscos. Os sinistros se repetem. Semana após semana. Mês após mês.
O algoritmo deve estar em curto.
Ele consegue identificar padrões, apontar riscos, cruzar dados, prever cenários. Mas parece não enxergar a ação necessária para impedir que a estatística se transforme novamente em nome, família e saudade.
E o que estamos fazendo?
Calando diante do grito do alcoolizado que insiste em dirigir?
Diante do infrator que conduz um veículo sem habilitação, muitas vezes em alta velocidade?
Diante do cidadão que agride, espanca ou ameaça o idoso que atravessa na faixa de pedestres?
Diante do motociclista que transporta três crianças na moto?
Diante do motorista que avança o sinal vermelho, mesmo dirigindo um veículo de última geração, cheio de tecnologia, mas que ainda não aprendeu a respeitar uma regra tão antiga quanto o próprio trânsito?
E diante da fiscalização que, em determinados momentos, pode ser enfraquecida pelo gestor de plantão, pelo receio de desagradar o eleitor que comete a infração no período eleitoral?
Essa é a parte do trânsito que não cabe em um aplicativo.
Não basta prever o sinistro. É preciso agir antes dele. Não basta contabilizar mortos. É preciso construir políticas capazes de impedir que eles entrem nas estatísticas.
Neste meu papo reto, quase um desabafo, fica uma pergunta: o que estamos esperando para transformar dados em decisões, decisões em ações e ações em vidas salvas?
No próximo final de semana, eu não gostaria de escrever sobre o número de mortos, muito menos assistir novamente ao desabafo emocionado de um jornalista amigo, que, depois de tantas coberturas naquele mesmo trecho, já não conseguiu falar apenas como profissional.
Falou como ser humano.
Falou como alguém cansado de noticiar mortes.
Gostaria de escrever sobre soluções.
Porque existem metodologias de sucesso. Existem dados. Existe tecnologia. Existem profissionais preparados. Existe gente com vontade de agir.
Talvez esteja faltando apenas que quem tem o poder de decidir dê espaço àquilo que deveria ser prioridade absoluta: salvar vidas.
A Semana Nacional de Trânsito de 2026 nos lembra: “Desacelere. Seu bem maior é a vida.”
Mas talvez seja preciso desacelerar também a nossa própria pressa de aceitar a estatística como destino.
Porque, como nos lembra a mensagem do Observatório de Trânsito, “O que a pressa não deixa você ver” pode ser justamente aquilo que estamos deixando de enxergar:
Uma vida.
Uma família.
Um futuro.
E talvez seja essa pressa de chegar, de ultrapassar, de decidir, de fazer, de fiscalizar menos, de não agir, que mata de uma só vez três pessoas, deixa sequelas em milhares, lota os hospitais de trauma e envergonha um país.
De um dia de domingo.
Carlos Marques Dunga Jr.
20/09/2026