Marcos Pires
Pobre é invisível
Já fui rico e já fui pobre, por sinal mais de uma vez. Sei exatamente do que estou falando. Aliás, acredito que pouquíssimas pessoas tenham esse duvidoso privilégio. Foi assim que descobri que pobre é invisível. Me dei conta da invisibilidade dos pobres quando meus pais, que eram milionários, perderam tudo. Da minha parte levaram dois automóveis zero; um Camaro e um Puma conversível mais uma enorme motocicleta, afora outros mimos.
Tive que terminar o curso de Direito para defender toda a família na centena de processos que resultaram daquela situação, bem assim inventei uma tal bolsa de telefones para sustentar meus filhos, complementando a renda com alguns bicos, entre eles tocando piano nos fins de semana. Eu não tinha carro para me deslocar até a Universidade, a Telpa (onde intermediava os negócios de linhas telefônicas) e outros lugares. A grana só dava para o ônibus, e muitas das vezes em que eu estava nos pontos esperando o coletivo, vi passarem os antigos amigos em seus carrões. Eu sabia que eles me viam, mas faziam de conta que nem tinham olhado e seguiam em frente. Muitos anos depois, quando perdi aquele superpoder da invisibilidade, característica dos pobres, um dos amigos me confessou que realmente me via esperando o ônibus mas não parava com medo de me constranger. É cada uma…
A verdade é que ninguém olha na cara do gari, da empregada doméstica, do vendedor de rua. Uma favela é notada como exemplo de pobreza, mas o pobre favelado que mora nela não tem cara, é ninguém enchendo a rua de pernas.
No entanto descobri que os pobres têm um humor excelente. Riem de si mesmos, o que é muito inteligente. Os ricos não sabem fazer isso. São chatos.
Francisco, que continua pobre e é meu amigo até hoje, tem tiradas ótimas. Um dia me disse que na casa dele só se fazia café mais de uma vez por dia quando tinha velório. Outra dele: “- Doutor, só vai andar na minha Ferrari quem me ajudar a roubar ela”.
Desses amigos também é feita a minha vida hoje em dia. Ajudo no possível e olho nos olhos de todos os pobres com quem cruzo.
A lição? Para conhecer uma pessoa veja como ela trata os mais humildes.
Na verdade, meu ideal é um dia ser rico conservando o humor de pobre.
Att,
Fantástico!!!
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