Meu pai gostava de nos contar histórias de alma, as dele eram sempre com mulheres, altas, de cabelos esvoaçantes, vestidas de túnicas brancas, andando rápido, descalças, quase sem pisar no chão e furtivamente desaparecendo. Tipo parecido era visto, na boquinha da noite, no Casarão de Azulejos, sem fazer zoada nos batentes de madeira. Mas, tal reclamação foi levada ao desdém, quando se descobriu que os reclamantes eram servidores públicos que não suportavam concluir o expediente da tarde, que ia até às dezoito horas, exceto nos tempos da Festa das Neves. Agora, o Casarão, ocupado pelo Desembargador Oswaldo Trigueiro do Valle Filho, para ser Museu da Justiça Eleitoral, imponha regras que impeçam a vinda dessas personagens do além, que não falantes, como as da APL, apenas espantavam funcionários, acabando o expediente, na então repartição do nosso saudoso Chico Pereira.
Quando as almas errantes saem, à noite, nas ruas do velho Recife, falam mais holandês, do que as que aparecem em João Pessoa. O confrade da Academia Paraibana de Letras, Odilon Ribeiro Coutinho, in memoriam, disse-me que confidenciou ao seu amigo Gilberto Freire, ao comentar com ele esse assunto, ter visto, várias vezes, um soldado holandês, em silêncio, andando na Avenida João Machado, como que tivesse saído da Igreja de Lourdes em direção ao IPHAEP, para que o antropólogo pernambucano soubesse que em João Pessoa havia também almas estrangeiras, além das tabajaras. Meu pai Inácio explicava amiúde que geralmente as almas não gostam de falar, mas na falta de caçarolas sozinhas caindo na cozinha, de queda de retratos, pendurados na parede, dos parentes que já morreram; de batidas de porta sem ninguém passando, ou de assobios do vento pelas frestas das janelas, elas causam medo, mas fazem qualquer coisa para anunciar que retornaram ou serem percebidas, como estranhas “coisas do além”.
Os gringos das “Terras Baixas”, segundo a História, preferiam as costas pernambucanas às paraibanas ou às baianas; ora aportando em Olinda, ora em Recife, até Maurício de Nassau se estabelecer por lá, onde corpos e almas viveram 24 anos, construindo prédios e pontes, só então expulsos pela “capitulação neerlandesa”. Mas, em tocaias, resistências, como a patriótica “Batalha dos Guararapes”, mataram e morreram muitos invasores, restando-nos almas desamparadas, com suas assombrações, o que foi suficiente para o sociólogo Gilberto Freyre escrever o curioso livro Assombrações do Recife Velho.
Tais almas não se limitaram às ruas e casarões do Marco Zero, ainda vagueiam à toa pela cidade, atravessando o Rio Capibaribe em direção à vetusta Faculdade de Direito, entrando no Teatro Princesa Isabel, como o Fantasma da Ópera, e vistas às vezes no Palácio das Princesas. O poeta Manuel Bandeira, à noite, andava assustado na Rua da União, onde aconteceram aparecimentos também de almas de outras etnias: espíritos de colonizadores lusitanos; de jesuítas perseguidos por Marquês de Pombal; de escravos clamando liberdade; ou de algum judeu chorando as dores da tortura da perversa Inquisição, como a alma da israelita Branca Dias.
Acredite quem quiser, as almas, sem língua, mas poliglotas, não sei se andam, correm ou voam, comunicam-se pela força imortal da mente e não precisam falar. Mas, pelo velho Recife, quando querem, falam holandês ou balbuciam alemão…
DESTAQUE: Quando as almas errantes saem, à noite, nas ruas do velho Recife, falam mais holandês, do que as que aparecem em João Pessoa