O turismo que o tempo me ensinou a enxergar

Por Alessandra Lontra
Neste 27 de setembro, Dia Mundial do Turismo e do Turismólogo, pensei menos em celebrar uma profissão e mais em tudo o que ela me permitiu viver.
São 44 anos trabalhando com turismo. Quando olho para trás, não me lembro primeiro dos projetos, dos cargos ou dos eventos. Lembro das pessoas e dos lugares. Das estradas percorridas, das conversas que mudaram minha percepção, das portas que se abriram e também das muitas vezes em que foi preciso começar praticamente do zero.
Vi o turismo mudar profundamente. Trabalhei em um tempo em que não existiam redes sociais, reservas na palma da mão ou essa urgência de transformar cada lugar em uma experiência “instagramável”. Vi destinos nascerem para o mercado, outros se reinventarem e alguns acreditarem que divulgação seria suficiente para resolver o que ainda faltava construir.
Talvez por ter atravessado tantas fases, hoje eu tenha mais perguntas do que certezas prontas.
Quando chego a um município, por exemplo, não procuro imediatamente “o que pode virar produto”. Primeiro observo. Converso. Escuto. Tento entender como aquele lugar funciona e como as pessoas se relacionam com o que têm.
Já encontrei patrimônios extraordinários tratados como coisas comuns por quem convive com eles desde sempre. Conheci pessoas que dominavam saberes valiosos e nunca haviam pensado que alguém pudesse viajar para ouvi-las, acompanhá-las ou aprender com elas. E também encontrei lugares ansiosos para receber turistas antes de estarem preparados para recebê-los.
Foi assim, no campo, que aprendi algo que nenhuma metodologia consegue ensinar sozinha: nem sempre o nosso trabalho é criar. Muitas vezes, é ajudar a revelar.
Essa percepção mudou a minha maneira de atuar.
Passei a desconfiar das soluções prontas e das fórmulas que poderiam servir para qualquer destino. Turismo não combina com copiar e colar. O que funciona em uma cidade pode não fazer nenhum sentido alguns quilômetros adiante.
Nos últimos anos, especialmente nas minhas andanças pelo interior da Paraíba, tenho reencontrado esse turismo que mais me interessa: aquele que ainda exige descoberta, escuta e construção cuidadosa.
É um exercício fascinante chegar a um lugar sem a pretensão de dizer imediatamente o que ele deve ser. Às vezes, uma conversa numa cozinha revela mais sobre suas possibilidades do que uma apresentação inteira. Uma caminhada com quem nasceu ali pode mostrar o que nenhum diagnóstico feito à distância conseguiria perceber.
Depois de 44 anos, continuo estudando, perguntando e me surpreendendo. Talvez seja justamente isso que tenha mantido minha relação com o turismo tão viva.
A experiência me deu repertório, mas também me ensinou a não chegar aos lugares carregando respostas demais.
Neste Dia Mundial do Turismo e do Turismólogo, é isso que celebro: uma profissão que me levou muito além dos destinos e me ensinou, sobretudo, a olhar.
Porque, depois de tantos anos, continuo acreditando que antes de mostrar um lugar ao mundo, é preciso aprender a enxergá-lo.

Alessandra Lontra é jornalista multimídia especializada em Turismo, mercadóloga e turismóloga provisionada pela ABBTUR. Com mais de 40 anos de atuação estratégica, é referência nacional em inovação no setor, com forte atuação em governança, roteirização, comunicação digital e inteligência artificial aplicada ao turismo. Editora do portal Ale Lontra – Notícias em Movimento para um Turismo Além do Óbvio.