UMA SEMENTE DE LUZ ( Clube da História)

UMA SEMENTE DE LUZ


No campo a vida era tranquila e havia trabalho para
todos. À noite, os avós contavam histórias
maravilhosas e, se alguma criança adoecia, todos
ajudavam na cura.
Um dia, chegaram as máquinas que cercaram tudo e
todos. E todos se esqueceram do que tinham
aprendido… Porém, há sempre um raio de
esperança, uma semente de luz que deixa que os homens se lembrem…
Pisavam a terra, ainda húmida do orvalho, em direção aos campos, todos eles. Homens
e mulheres, grandes e pequenos. Para todos havia trabalho nas colheitas. Às vezes, um
trabalho bem duro, mas reconfortante. Suavam, ao sol do outono, cálido e doce.
Havia maçarocas grossas para apanhar, cestos para carregar e levar. Os mais velhos
apanhavam as mais altas, as crianças as mais baixas. Todos, ao ritmo das canções da apanha.
Por vezes, um pai inclinava-se para acariciar o filho. A mãe pedia que, se fossem
brincar, não se afastassem muito dali.
E o dia ia decorrendo, ao sol, maçaroca a maçaroca.
E a terra sorria com as crianças.
Esboroar carros a transbordar demora horas. E enquanto os grãos iam caindo nas
canastras, os avós contavam contos de encantar. Aprendia-se a origem e a história. A relação
sagrada com as montanhas e os rios. A gula da raposa e a astúcia do coelho.
O lugar mais perto do fogo era para a criança aleijada, e ao lado da avó ficava a menina
doente. Todos, fazendo parte de uma só vida. A celebrarem a generosidade da terra.
E a lua cobria os campos de uma cor azulada.
A cerimónia em que se dava o nome a uma criança durava vários dias. Os mais sábios,
que conheciam os astros e a história, procuravam sinais: nas constelações, no primeiro
animal que o pai viu no dia do nascimento, na flor que perfumou os sonhos da mãe. Tudo,
porque o nome torna-nos únicos e escolhê-lo bem é mostra de respeito para a vida que
começa. É este o maior tesouro…
E logo que a criança o recebe e o aprende, as águas do ribeiro parecem murmurá-lo…
Por vezes a dor surpreendia-os.
Não há pena maior do que ver uma criança doente! E todos davam o melhor da sua
experiência: as mulheres traziam as ervas medicinais, os homens caçavam aves de carne
tenra para se fazer um bom caldo, as avós cantavam canções de embalar enquanto tocavam
com as mãos bondosas no doente. E se nada disso aliviasse a tosse ou a febre, acalmasse os
enjoos ou a dor, intervinha o bento com os seus conhecimentos herdados dos cem bentos
anteriores…
E todo o ser vivente sabia que nada há mais valioso do que a saúde de uma criança.
Mas, um dia, surgiram chaminés onde antes cresciam árvores. Os campos de cultivo
foram invadidos por fábricas. E nelas a máquina foi crescendo.
A máquina que sorvia as horas e os dias e queria mais, cada vez mais…
Meses e até anos não bastavam para saciar o seu apetite, pois a máquina era dotada
de braços e pernas e apenas produzia pressa e exigência. E avançava pela terra dentro,
secando os rios e esmagando as flores.
E o seu fumo impedia que se visse a face do sol.
Já ninguém tinha nome, apenas três números e um ponto.
E os braços mecânicos da máquina separaram os adultos das crianças.
E a máquina obrigou-os à força a trabalhar em silêncio, e cada vez mais rápido.
Rejeitados, velhos e crianças não tinham lugar nas filas todas iguais que cada vez mais
apressadas se dirigiam para as fábricas. E foram sendo atirados para a rua. E aí, sem casa
nem comida, mendigavam um pouco de vida, de olhos apagados e voz dorida.
Já não se ouvia cantar nenhum pássaro.
Já ninguém sabia cuidar dos doentes.
A máquina ajudava só quem lhe pudesse ser útil, e os seus braços não regateavam
remédios aos mais fortes. Mas os débeis ficavam desamparados, abandonados à sua sorte.
E das crianças ninguém se ocupava.
Uma manhã, um raio de sol atravessou o céu cinzento. Conseguiu infiltrar-se por entre
as nuvens de fumo, entrar pelas grades da fábrica, e iluminou por um instante, um só
instante, a cara de um condenado…
Ao sentir a carícia, a sua memória adormecida despertou. E lembrou-se dos campos,
do trepar às árvores para apanhar fruta, do meter-se entre os juncos do lago, do cheiro a
tortas de milho a fritar no barro… Começou a lembrar-se de que era um homem… porque se
lembrou de já ter sido criança!
E, nessa noite, a lua cheia despertou a mulher adormecida. Que, banhada de azul, se
imaginou a correr pelos campos, a apanhar chuva nos braços, e estranhou não ter neles o
peso de uma criança.
E então soube que tinha que ir à procura daquela colheita que fazia crescer o sorriso
das crianças.
E, nessa madrugada, antes que o apito das fábricas recolhesse as filas de condenados e
sorvesse a última gota de amor, o homem e a mulher encontraram-se na rua e,
reconhecendo a luz no olhar um do outro, acordaram os mendigos e recolheram os meninos
abandonados.
E juntos começaram a andar,
com passos rápidos de compaixão,
um punhado de seres gastos e
esquálidos…Mas cada um deles
entesourando a esperança, como
se fosse um grão de trigo entre as
mãos…
Num certo recanto de terra a
chuva caiu durante dias e a vida
começou de novo a despontar… devolvendo rebentos de cor à terra, curando as feridas com
sol e amor, dando a cada mulher, homem e criança, um lugar, uma tarefa, um sítio para
descansar, e brincadeira em abundância.
E os mendigos voltaram a ser anciãos sábios.
E o seu primeiro conselho foi aprender com a experiência, recontar o que sucedera,
refletir e partilhar o sofrimento para que pudesse ser apagado.
Para sempre.
E começou de novo a criar-se a história.
Juntos construíram um espaço amplo, com muita luz. Chamaram-lhe escola e
encheram-no de contos e histórias. E disseram que lá seriam bem-vindos todos os meninos e
meninas e que nenhum seria rejeitado. E insistiram para que nada fosse aprendido apenas
de cor, mas que tudo fosse explicado e entendido. E que o conhecimento se fosse
construindo, dia após dia, com o contributo de cada um, como se se estivesse a fazer um
palácio de blocos de cristal.
E viu-se que a coisa mais bela era o facto de todos serem diferentes: altos, baixos,
gordos e magros, com a pele de todas as tonalidades possíveis; uns ágeis e seguros nos seus
movimentos, outros a precisar de ajuda para poderem andar, velhos muito idosos que mais
parecia terem vivido desde sempre, e crianças ternas, com toda a vida pela frente.
E compreenderam que esta diversidade — que refletia a diversidade das flores,
insetos, aves e plantas — era o seu maior tesouro e que a esperança se alimentava de
respeito e de solidariedade.
E quiseram celebrar tudo o que tinham aprendido. E dançou-se e cantou-se.
Comeram e brincaram, contaram histórias e celebraram uns aos outros.
E, quando já estavam cansados de rir, de brincar e de dançar, puseram-se a conversar
em grupos.
No final do dia, alguém em cada grupo, às vezes um velho, outras um jovem, ou ainda
uma criança, escreveu, para que todos a vissem e ninguém se esquecesse, a grande
promessa universal.
Nela falava-se de cuidar das crianças, de as proteger e dar-lhes um lar. Falava-se do
direito a um nome e a uma nacionalidade, do direito à saúde e a ter casa, educação e
igualdade. E, acima de tudo, da necessidade de amor.
E até hoje estes princípios são o caminho para a justiça e para a paz.
Como disse o homem culto e bom, nobre e simples, amante das crianças, que se
chamou José Martí:
As crianças são a
esperança do mundo.
As crianças nasceram para
ser felizes
porque são elas
quem sabe amar.
Alma Flor Ada
Una semilla de luz
Madrid: Alfaguara, 2000
(Tradução e adaptação)