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Sua hora vai chegar ( Thomas Bruno Oliveira)

Sua hora vai chegar

 

É muito interessante quando refletimos sobre usos e comportamentos de determinada época e o conflito de gerações. Há algumas vivências de bem pouco tempo atrás que são absolutamente impensáveis por gente mais nova. Talvez por isso que a adolescência de cada geração tenha no estigma da rebeldia a negação do que gerações passadas legaram, sobretudo a imediatamente anterior.

 

A moçada de hoje, conhecida por geração ‘Z’, até batizou de cringe hábitos que entendem não combinar com seus dias. O amigo Luiz Paiva suscitou essa semana no Jornal A União a tal discussão. Em ‘Conflitos inúteis’ ele dá um puxão de orelha na “derradeira geração (que) desanca xingação na anterior” por hábitos e atitudes que a envergonha. Em outras palavras, “mangam” do que estaria fora de moda, antiquado, antigo ou brega. Será que algum leitor ou leitora pensou “é o novo!”?

 

Não sabem eles (nem sei se também os mais antigos) que no início dos 2000, quando houve uma popularização dos celulares, a moda da juventude era o envio de mensagens gratuitas a partir do site da operadora, eram as mensagens ‘sms’ que nada custava, era ir à lan house com uma lista de contatos para torpedear todos. O que dizer de se comunicar em ligação falando em até três segundos? Modismo dessa mesma época, havia diálogo mais curto do que: – Estás onde? (desliga). – Em casa! (desliga). – Tá atrasado pro colégio (desliga). – Vou com mãe no mercado. Todo o diálogo ocorria nessas pequenas chamadas, caso houvesse um descuido e avançasse os três segundos, havia uma cobrança de valiosos centavos, o equivalente a duração de um minuto. Lembrando que nesse período, a ligação via celular era ainda muito cara.

 

Com Paiva (ao centro) e Gonzaga Rodrigues na Livraria do Luiz (João Pessoa-PB)

E o que dizer ainda de quem usava ficha telefônica? Só quem viveu sabe que aquelas fichinhas duravam uma eternidade de três minutos para ligações locais ou apenas dezoito segundos para ligações interurbanas. Para ligar para “o Recife”, como Papai dizia antes de sairmos de casa para um orelhão do bairro, ele comprava um punhado daqueles metaizinhos redondos que ia colocando acima do aparelho telefônico. Nessas ligações em que meu Pai falava com parentes, ficava eu embaixo do aparelho ouvindo atentamente a conversa, ao mesmo tempo que percebia a ficha sendo engolida pelo mecanismo. O discador era uma catraca giratória e não um teclado. E quando tinha fila? O desespero de quem esperava ao ver quem ligava sacar do bolso mais uma ficha, e mais outra. O buchicho era grande, todos se entreolhavam. Quando não, íamos a um posto da Telpa, defronte a UFPB (hoje UFCG), para cabines acolchoadas onde se cobrava a duração.

 

Tempos depois veio o cartão telefônico e a farta disponibilidade de coleção, já que na face externa eram estampadas séries (geralmente fotográficas), ainda tenho na coleção a ‘série museus’ com mais de cem exemplares. A Telemar fez uma com os escudos dos times paraibanos. Lembro que a coleção mais cara era a ‘série Ayrton Senna’, dez cartões com fotos diferentes do piloto e a tiragem daquele cartão dava o tom do preço. Um milhão de exemplares era considerado comum (tiragem nacional), quando eram produzidos apenas cinco mil, mais valioso era. Ali, na calçada da Telpa, na Floriano Peixoto, tinha os vendedores e o encontro de colecionadores desses cartões. Fui muitas vezes.

 

Outra coisa medonha que essa geração nem pode imaginar, lá no início da década da 1990, no advento do celular – aquele Motorola analógico (tijolão!) – que para falar se levantava a antena e abria o teclado, com uma linha digitável, não era qualquer um que podia possuir aquele ‘tele móvel’. Para facilitar a comunicação da família, minha inesquecível tia Nevinha (Recife) deu um desses a meu Pai. Certa vez, fomos ao centro da cidade de ônibus coletivo. Papai com sua capanga coberta pelo sovaco e o celular encangado no cinto, despertou a atenção de outros passageiros. E de repente tocou “trimm”, ouvi o comentário: – Ele de celular e andando de ônibus? Como pode? Teve gente que correu para ver, nunca havia visto! Aquela evidente incompatibilidade é como se hoje alguém possuísse um smartphone de última geração e fizesse um retrato próprio (selfie) dentro de uma casa sem móveis e paredes inacabadas. Agora me permita concordar com Ariano Suassuna, não gosto desses estrangeirismos, porque para mim não há nada mais cafona do que reproduzi-los e os da moda são home-office e delivery.

 

Belíssima coleção de LP’s dos Beatles que ganhei, ao lado de uma radiola Grundig

 

Meu amigo Paiva, resta esperar que a geração Z chegue à maturidade e comece a ver que muito daquilo que parecia “careta” não é e, a partir de então, curta aqueles costumes se intitulando de retrô ou vintage. Mas não basta só isso, tem que “pegar ar” com o prevalecimento (que insistem em chamar de bullying) da futura geração de adolescentes que os denominarão de outro termo qualquer.

 

E para a “poderosa” geração Z, se: tomar café, ler jornal, ser apaixonado por livros é ser “cringe”, mesmo com meus trinta e poucos anos, devo ser considerado um cringe da melhor idade. E se hoje já é cringe chamar os outros de cringe, aguarde, sua hora vai chegar.