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Cientista político diz que conflitos do Governo Ricardo são setoriais e que oposição está perdida

O cientista político Jaldes Meneses, professor de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), concedeu entrevista ao paraíba.com.br traçando um perfil do Governo Ricardo Coutinho (PSB), analisando as primeiras medidas e ressaltando como a oposição tem se colocado dentro da atual conjuntura política. Há apenas 36 dias no comando do estado, Coutinho já adotou medidas duras como exonerar 50% dos servidores temporários, não pagar o reajuste dos salários dos policiais e anunciou o “ apertar dos cintos” das contas do governo.

Na fala do professor, o ‘Governo Ricardo,tomando essas medidas cria conflitos apenas com alguns setores da sociedade e não atinge o seu apregoado projeto de hegemonia, ou seja, de construir o bem-estar para a maior parte dos paraibanos. Jaldes acredita que Ricardo irá alcançar o objetivo de ampliar o seu espaço na sociedade civil, mesmo tomando medidas que para muitos são impopulares.


De acordo com o professor, Coutinho tem dois grandes objetivos de governo: sanear as finanças do Estado (um dos maiores devedores entre os estados brasileiros e que atualmente está impossibilitado de firmar convênios e contrair empréstimos por ter pendências com a União) e se aproximar da sociedade civil.

Em outro momento o professor da UFPB fala sobre o papel atual da oposição na Paraíba e afirma: ‘ a oposição está perdida’.

Leia a entrevista completa com um dos maiores cientistas políticos do Estado:

– Relação com a sociedade civil

A origem da candidatura de Ricardo Coutinho são precisamente a sociedade e os movimentos sociais. Contudo,  é engano pensar a sociedade civil como um monólito [bloco único], ela é necessariamente plural e diversificada. Trata-se de uma estrutura, uma espécie de arena de luta política permanente, que nunca acaba. Por isso, a tarefa de qualquer projeto político consistente é de construir hegemonia e não unanimidade, algo praticamente impossível, e ainda mais, como diz Nelson Rodrigues, toda unanimidade é burra.

– Medidas de governo e confrontos

Considero previsível que no começo do governo, dada a atual gravidade da crise fiscal e financeira do Estado, haja confrontos com áreas do funcionalismo público (principalmente nos setores de segurança e saúde). Mas é importante perceber que isto não é toda a sociedade civil, mas uma parte dela, que expressa demandas corporativas e econômicas. Ora, se são demandas corporativas, não têm como ser hegemônicas na sociedade, já que é expressão setorial.

– Perfil do governo

O governo de Ricardo Coutinho é antioligarquico e antipatrimonialista [patrimonialista é o governo que não distingue propriedade pública e privada]. Ou seja, o atual governador não é herdeiro de nenhum grande grupo político da Paraíba.  A região Nordeste é a mais resistente em extinguir a cultura política do pratrimonialismo oligárquico [poucos administravam o estado sem distinguir patrimônio público e privado]. No entanto, nas eleições recentes no Nordeste, se percebe, primeiros nas capitais, depois pelo restante dos estados, um forte movimento de renovação política. É um processo em curso que não será estancado.

– Alianças com DEM e Cássio Cunha Lima

Trata-se de uma aliança contraditória, mas nesses momentos é importante perceber qual é a direção política concreta do governo e quem é hegemônico dentro da composição. Basta ver o secretariado escolhido pelo governador: embora tenha acomodado os aliados, é evidente que não houve uma fragmentação [de idéias, ou seja, segue-se um projeto político único guiado pelo governador]. Talvez exatamente por isso tenha havido uma crítica cifrada, nos bastidores, de setores que apoiaram a eleição de Ricardo Coutinho.

– Papel da oposição

A oposição não sabe bem o que fazer. Apenas apoiar movimentos corporativos é insuficiente [policias e servidores públicos estadias de maneira geral, por exemplo]  e pode até voltar-se contra quem aposta todas as fichas nesse tipo de atuação. Há um exemplo bem prático: o mesmo Ricardo Coutinho, no começo da gestão na Prefeitura, enfrentou o mesmo tipo de tática. Resultado: quem se empenhou nesse tipo de tática, perdeu inclusive o mandato na eleição seguinte. Diria até que se a oposição ao governo tiver apenas a participação nesses movimentos como discurso político vai se dar mal, por que é sintoma de certa incapacidade em formular um projeto político abrangente, universalizante, não simplesmente setorial.

– Partidos na contramão

Alguns que em parte fazem oposição ao governo estão indo na contramão de si mesmo. Exemplos são o PT e o PCdoB foram fundados  com a bandeira da renovação política e com base na participação da sociedade. Essa é precisamente a proposta do atual governo. [Uma ala do PT estadual].

– Perspectivas de governo

O governo deve atuar em três frentes combinadas: o saneamento fiscal e financeiro, a elaboração de políticas sociais consistentes e profundas para dar resultados até o final da gestão, e ampliar espaços na sociedade civil e política cujos primeiros resultados já deverão se dar nas eleições de 2012.

Lindjane Pereira

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