
Embora o sítio arqueológico da Paraíba não seja mostrada diretamente nas cenas, a Pedra do Ingá está profundamente inscrita na alma do filme “O Agente Secreto” (2025), de Kleber Mendonça Filho, por meio de sua trilha sonora. A conexão se dá através do álbum “Paêbirú” (1975), de Lula Côrtes e Zé Ramalho, cuja inspiração central é justamente o misterioso sítio arqueológico.
A faixa “Trilha de Sumé”, presente no filme, é a chave dessa ligação. Composta após uma visita dos artistas à Pedra do Ingá, a música referencia diretamente o local em seus versos: “Com sua barba vermelha desenha no peito a Pedra do Ingá”.
No contexto do filme, que se passa em Recife em 1977, a escolha dessa trilha não é casual. O álbum “Paêbirú” já era, naquela época, uma raridade envolta em lenda a maioria dos discos originais havia sido destruída na grande enchente de Recife em 1975. E sua inclusão na narrativa cumpre múltiplos papéis:
Ambientação histórica e geográfica: A música transporta o espectador para o Nordeste Brasileiro dos anos 1970, capturando sua atmosfera cultural e sonora.
Sintonia temática: Assim como a Pedra do Ingá guarda segredos milenares a serem decifrados, o protagonista Marcelo (Wagner Moura) vive uma jornada de fuga da ditadura militar em busca de sua própria identidade e passado.
Resgate da memória cultural: Kleber Mendonça Filho, conhecido por sua cinefilia e interesse pela preservação da memória, utiliza “Trilha de Sumé” como um potente ato de resgate. Inserir essa obra-prima quase perdida da psicodelia brasileira em um filme de alcance internacional é uma forma de reivindicar sua importância.
Portanto, a Pedra do Ingá não está no filme de forma física, mas está presente em sua essência. Através da música que ela inspirou, o monumento arqueológico torna-se um símbolo poderoso da trama: um testemunho silencioso do passado, cujos mistérios e “trilhas” se entrelaçam com a jornada do personagem de Wagner Moura e com a própria história cultural do Brasil, agora projetada em uma obra indicada ao Oscar.
Pesquisador: J. B. Lira Neto.