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Blog do Vavá da Luz

Violência e violências contra a mulher (Damião Ramos Cavalcanti)

        

           O raio que matou o agricultor, que estava arando sua plantação de macaxeira, numa manhã chuvosa, na Una de São José, não cometeu violência, porque a natureza não pratica atos violentos, mesmo que pareçam, também porque o essencial elemento da violência é a intencionalidade, com uso proposital de força ou de poder, como se configura nos mísseis propositais de Trump, assassinando os pescadores, nos pequenos barcos, que pescavam nos mares do Caribe; igualmente, foram atos de violência os assassinatos de Lincoln, John Kennedy, Robert Kennedy e Martin Luther King, todos intencionais, com o uso do poder e de armas de precisão. Assim também foi o assassinato do dirigente maior do Iran, na sua residência em Teerã, matando também seus familiares, episódio prazerosamente assistido por Trump, numa  confortável poltrona, na sua seguríssima sala, elogiando a pontaria precisa do míssil americano, o que contradiz ter vitimado, por engano, a escola de centenas de moças iranianas. Esses violentos mísseis são armas que diferem do raio que atingiu o rurícola, que plantava macaxeira, exposto à natureza,  isenta de crime…
          É de longe que vem se estabelecendo a luta dos mais fortes para dominarem os mais fracos, bem teoriza essa história, com exemplos mais recentes do nazismo e do fascismo, o filósofo e sociólogo francês Georges Sorel, em cuja obra Considerazioni sulla violenza, demonstra a violência entre as classes sociais, para se exercer a autoridade política da sociedade, onde os de maior força, sempre com as violências simbólicas e não simbólicas, dominam os mais fracos. É a força, que se instrumentaliza pela violência e domina a cidadania  dos mais fracos, negando seus direitos…

          A violência, que se amplia num mundo já extremamente violento, desce às ruas da cidade, penetra nos bares, nas escolas, nos bairros, em forma compactuada de facções, contagia os indivíduos, e retorna às casas, de onde deve ter saído, na prática exemplar de pais violentos, que reprimiam batendo, numa educação de palmatória, vira ela violência de filhos contra os pais, mas o que se sobressai é a violência do pai contra a mãe, não evitando que os filhos vejam a mãe, a mulher, sofrendo crescentes agressões de rotina, que sem a reação da denúncia, culmina com a morte. Dias atrás, a escritora, Vitória Lima, colega da Universidade e de crônica neste Jornal, mulher de luta e de coragem, desabafou o temor: “Está sendo perigoso ser mulher”… E ainda restam outras sequelas; segundo o Instituto Maria da Penha, de elogiável atuação, “a violência é um problema de saúde pública mundial, que afeta a integridade física e psíquica das vítimas”.
         De ordem física, quando o covarde agressor sente possuir maior força em relação à companheira, e a agride com tapas, socos, chutes e empurrões ou pelo uso de arma, que finalmente utiliza para o feminicídio. Enquanto isto não acontece, utiliza a intimidação psicológica, através de ameaças e humilhações em público, que chega a ser, moralmente, calúnia, difamação ou injúria. Na alcova da casa, isolamento ou destituição, retenção de bens, e até de documentos e recursos, dificultando meios para denunciá-lo.
          Quando alguém, ideológica e politicamente, aprova tortura e vê com desdém a morte alheia, objeto de vil assassinato, não possui sentimento capaz de desaprovar a violência contra a mulher. A mulher, que assim padece, deve sofrer duas grandes dores: a primeira é a indiferença dos que com ela convivem; e a maior é receber, de quem esperaria amor e carinho, a violência de socos e pontapés. E a favor disso, a violência sempre se cobre com o véu da mentira…                  
Destaque: Na alcova da casa, isolamento ou destituição, retenção de bens, e até de documentos e recursos, dificultando meios para denunciá-lo.

Damião Ramos Cavalcanti

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