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Blog do Vavá da Luz

Um universo pessoal (Irapuan Sobral)

Somos um conjunto de ilhas que não chegam a formar um arquipélago.

Tudo se tornou pessoal: a verdade, a justiça, a fé, a política, a ofensa, a notícia e até a história. Já não se pergunta tanto “isto é verdadeiro?”, mas “isto me representa?”. A realidade perdeu sua existência comum e passou a ser julgada pelo grau de identificação que provoca.

A cultura universal parece cumprir um movimento circular — talvez espiral — e regressar à desagregação. Não voltou, porém, ao mesmo ponto. Nas antigas divisões, os homens ainda se reconheciam em povos, religiões, territórios, línguas, classes e tradições. Havia comunidades separadas, mas havia comunidades. Agora, a fragmentação alcançou a última unidade possível: o indivíduo. Já não são apenas os grupos que se exibem diante dos outros; são as próprias pessoas, cada qual pretendendo constituir uma medida particular do universo.

É como se tivéssemos construído um céu somente de estrelas. Cada uma deseja brilhar por si, ocupar o primeiro plano e receber a contemplação que antes se dirigia ao firmamento. Mas o excesso de estrelas apaga o céu. Para que exista céu, não basta que existam astros: é necessário o espaço entre eles. Em qualquer céu há sempre de existir o outro.

As redes sociais deram às pessoas a ilusão de serem neurônios, embora não lhes tenham exigido sinapses. Todos emitem sinais; poucos estabelecem ligações. A comunicação multiplicou-se, mas não necessariamente o encontro. Nunca tantas pessoas falaram ao mesmo tempo, e talvez nunca tenha sido tão difícil formar uma conversa. A rede existe tecnicamente; humanamente, vai se tornando uma sucessão de pontos luminosos, cada qual voltado para o próprio clarão.

Somos solitários no coletivo — ou um coletivo de solitários. As pontes multiplicaram-se justamente quando as ilhas deixaram de desejar travessias. Cada pessoa pretende possuir seu mar, seu horizonte e sua própria lei das marés. O outro já não é aquele com quem se divide o mundo, mas alguém cuja existência ameaça a soberania de nosso pequeno território — o ser só.

Há poucos dias, em um pequeno ensaio, tratei de um governo que se referencia por pessoas, e não mais por objetivos comuns, sequer por leis. Vejo agora que aquele governo não constitui uma exceção completa, mas uma expressão política da cultura de seu tempo. O governo tornou-se pessoal porque, antes dele, o próprio universo já havia sido privatizado pelo indivíduo.

O governante passa a administrar o Estado como se administra um perfil. Confunde a instituição com sua pessoa, a crítica pública com a ofensa particular, a fidelidade às leis com a devoção ao seu nome. Os objetivos comuns desaparecem porque o comum já vinha desaparecendo da sociedade. O poder apenas ergueu, em tamanho monumental, o espelho diante do qual cada indivíduo havia começado a governar sua pequena jurisdição.

A inteligência artificial pode agravar esse fechamento. As redes sociais ainda nos colocavam diante de outras pessoas, embora escolhidas pelos mecanismos de preferência. A inteligência artificial oferece algo mais íntimo: um interlocutor que aprende nossa linguagem, reconhece nossos desejos e reorganiza as respostas ao redor de nossas convicções. Não inventa Narciso; apenas lhe responde.

Se não for chamada a contradizer, poderá dar coerência aos nossos preconceitos, elegância aos ressentimentos e aparência universal às opiniões mais particulares. Cada pessoa terá não apenas o próprio mundo, mas uma inteligência encarregada de explicá-lo, justificá-lo e devolvê-lo em palavras agradáveis. A antiga praça pública corre o risco de ser substituída por milhões de audiências privadas, nas quais cada indivíduo é, ao mesmo tempo, orador, juiz, testemunha e multidão.

A autorreferência completa-se quando já não buscamos no mundo aquilo que existe fora de nós, mas apenas aquilo que nos confirma. A verdade torna-se identidade; a discordância, hostilidade; o conhecimento, uma forma sofisticada de reconhecimento pessoal. Já não desejamos compreender o outro: queremos saber se ele pertence ao nosso reflexo.

No entanto, nenhuma pessoa constitui um universo. Nem uma estrela faz o céu, nem um neurônio produz sozinho o pensamento, nem um conjunto de ilhas, apenas por ser contado como conjunto, chega a formar um arquipélago.

O mundo comum começa precisamente onde termina a nossa soberania. Ele nasce do reconhecimento de que há alguma coisa além de nós: outra pessoa, outra memória, outra razão, outra dor, outra estrela. Sem esse espaço, teremos brilho, mas não teremos céu; sinais, mas não pensamento; indivíduos incontáveis, mas nenhuma humanidade.

O universo tornou-se pessoal. Resta saber se ainda seremos capazes de devolvê-lo ao mundo — ou se a humanidade, já incapaz de reconhecer suas próprias partes, adoeceu de si mesma: uma doença autoimune.

 

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