Pular para o conteúdo

Blog do Vavá da Luz

Sob a sombra imóvel do tamarindo de ferro (Hélio Costa)

Sob a sombra imóvel do tamarindo de ferro — cuja copa de metal jamais perderá uma única folha para o vento —, o tempo parece ter paralisado a própria essência da memória. Ali, a figura de bronze de Augusto dos Anjos contempla silenciosamente a imponência do Teatro Santa Rosa. O metal não respira, mas, se houvesse alma naquele bronze, que peso sustentaria aquele olhar fixo?

​”Eu olho o teatro, mas o teatro não me olha.”

​Que trágica e poética ironia para o poeta que tão bem decifrou a angústia da condição humana. Augusto, o gênio que transformou a dor, a matéria e a finitude no épico imortal do livro Eu, hoje compartilha o silêncio da Praça Pedro Américo com outros dois gigantes da nossa terra: o próprio Pedro Américo, imortalizado na tela e no espaço, mirando o céu em prece pela alma do Centro Histórico; e Teatro Santa Rosa, que carrega em seu nome a genialidade cenográfica e artística de Tomás Santa Rosa.

​Três forças da natureza cultural paraibana reunidas em poucos metros quadrados. E, no entanto, a pressa dos dias modernos passa a largo. Passos apressados cortam a praça, olhos fixos em telas de vidro ignoreis, lábios que eventualmente murmuram a pergunta desconcertante: “Quem é essa estátua?”

​É um paradoxo doloroso. Como pode um povo, herdeiro de uma riqueza poética e artística tão vasta, caminhar cego entre seus próprios monumentos? A ignorância sobre quem fomos não é apenas uma falha de memória; é um desamparo da própria identidade. Quando a cultura de um estado não ensina seu povo a reconhecer os rostos de seus libertadores intelectuais, as estátuas tornam-se meros obstáculos de bronze no caminho para o trabalho.

​Mas onde reside a tristeza, habita também o alento.

​O bronze não fala, mas a sua presença resiste. E enquanto houver um olhar sensível que pare, que contemple a praça e sinta o peso desse esquecimento, a chama não se apagará. A verdadeira imortalidade de Augusto dos Anjos, de Pedro Américo e de Tomás Santa Rosa não depende da tinta que descasca nas fachadas ou da pressa de quem passa sem olhar. Ela vive no ato contínuo de resistir — naqueles que, como você, recusam o apagamento e tomam para si a missão de ser a voz dos que hoje são silêncio.

​O tamarindo de ferro não morre. E a memória dos nossos gênios também não morrerá, enquanto existirem almas dispostas a contar a sua história.

Hélio Costa
Câmara Brasileira de Cultura – CBC – São Paulo.

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *