“O tempo é a diversa trama dos sonhos ávidos que somos”
(Jorge Luis Borges – Rubayat in Elogio da Sombra)
Recomenda-se aos vivos manter equilibradas as contas de viver. O débito, quando encontrado, costuma apresentar-se como fatura impagável, em instantes de profunda angústia.
O espírito de viver inquieta a alma, e esta desequilibra o corpo, cujo funcionamento é físico-químico. Os desejos são corporais, movidos por sequências de reações. Os sonhos, como as esperanças, pertencem à alma. Ambos — desejos e sonhos — são contidos pelo espírito, esse elo comum que atravessa as almas e as liga num mesmo cordão divino, ainda que cada personalidade o experimente de modo diverso.
Buda, iluminado ascético, preferiu despir-se do corpo e elevar os desejos à alma, escolhendo a eternidade como espírito. Cristo incorporou-se à realidade inteira — corpo, alma e espírito — e conferiu plenitude ao viver, superando a morte. Ambos lavaram culpas com o perdão.
Adão e Caim só puderam viver como prenda após a descoberta dos sentidos, em seus valores absolutos e simetricamente justificáveis; morreram humanos, mas prenhes de divindade e eternidade.
Alguns débitos contraídos ao longo da existência, na ânsia de viver — por desejos ou esperanças —, são visíveis apenas ao espírito e cobrados pela alma ao corpo. A abundância de dias pode degenerar a esperança na alma e os desejos no corpo; mas a juventude, posta como infinita, abre o eterno pela curiosidade. “É preciso encantar a serpente antes que ela morda” (Eclesiastes).
Evitar débitos seria tratar o nascimento como pecado absoluto e, por consequência, abdicar dos créditos possíveis. Só ao olhar do tempo se contabilizam os atos. Apenas quem vive chega ao paraíso — ainda que pela morte. A vida é graça credora do tempo, e a consciência, essa simbiose de alma e espírito, é quem apura o saldo.
Há quem, na tradição cristã, inspirado em Santo Agostinho, diga que viver é assinar um papel em branco e deixar que Deus escreva o que quiser. Vejo de outro modo: viver é saber que a vida que se escreve será assinada por Deus. Não somos folhas vazias; somos manuscritos em curso. A liberdade escreve, o tempo revisa, e Deus, no fim, assina — não como quem impõe, mas como quem reconhece.
O instante da cobrança é quando a consciência encontra o tempo — em angústia ou alegria, conforme o resultado. Talvez por isso o destino não admita acertos prévios nem aceite quitação antecipada. Ele empresta a vida inteira e corrige o saldo no fim do exercício.
O eleito não sabe que morreu, porque o paraíso é continuação da vida; o condenado não sabe que viveu, porque a vida é o seu inferno.
A Fatura do Destino
O destino não aceita
pagamento antecipado;
ele oferece o viver
e corrige o emprestado,
com suas taxas de juros
que têm valor elevado.
Quando o devedor carente
de saúde, vida e estado,
insolvente e sem recursos,
dá conta do resultado,
só tem a vida a pagar
e nem com a morte é quitado.