No último Dia de Finados, acordei refletindo que os vivos parecem menosprezar os mortos. Então, convidei Marilene e Ivan para irmos ao Cemitério Senhor da Boa Sentença visitar o túmulo dos nossos pais — onde o meu, ao lado, já se encontra comprado. Todos homenageavam os seus que faleceram, por uma cultura de memória familiar, com flores, rituais e orações. Uns ainda confessam um certo receio de que as doenças não desapareçam no sepultamento e tomam um prolongado banho se forem a um enterro. Mas outros, ao receberem um convite fúnebre, não perdem o velório; estimam ser uma ocasião única de reencontros, relembram amizades, abraçam parentes há anos não vistos e reconhecem a convivência interrompida pelo morto.
Chegam até a chorar nos velórios, mas, diante do falecido, com pouca tristeza, também riem, falam das coisas que possuem, de dinheiro, e observam o envelhecimento alheio, e outras coisas relacionadas à aparência, escapando-lhes dos lábios sorridentes a saudação: “Tudo bem?”. Ao ouvir isso, apontei a proximidade do morto e, ao meu incompreendido gesto, ele balbuciou-me: “É a viúva”. E – na perspectiva de que morreremos – encarou a nossa finitude: “As nossas também chorarão”. Ao contrário do que dizia, na hora de um brinde, o amigo Ademar Machado (in memoriam): “Que as nossas mulheres nunca fiquem viúvas…”. Acontecem, nos velórios, burlescas cenas fellinianas. Outras respeitosas condolências sucedem na Missa de Sétimo Dia.
O cemitério não estava como em anos atrás: havia pouca gente. Observei que, desse modo, anda morrendo o Dia de Finados, ou os sentimentos de outrora não são os mesmos, como se estivessem esvaindo-se, desgastados pelo tempo e por outras inteligências… Logo na alameda da entrada, encontrei um ex-aluno da Universidade, que se lembrou do meu nome e de ter dito, na sala de aula, haver trabalhado num cemitério da Alemanha. Pediu-me, então, que contasse à sua mulher e ao filho o que mais lhe impressionara de todas as minhas aulas. Sorri com tristeza, mas, confesso ter sido, em todos os sentidos, uma extraordinária experiência na minha vida de trabalho.
Estudando em Roma desde 1966, tinha me inscrito para, em 1967, durante as férias, trabalhar em escavações arqueológicas na cidade de Krefeld. Parti de trem para a Alemanha, motivado pela necessidade de uns marcos e pelo gosto que adquiri ao ler Antropologia. Após conturbada noite, no oitavo leito ao qual se subia após sete camas onde dormiam estranhos estrangeiros; saí com maleta e tudo do Albergo della Gioventú e peguei o bonde para o pátio da Prefeitura, onde já se reuniam uns 30 candidatos ao tal emprego. O discurso do homem de paletó preto com insígnias oficiais foi, em alto tom, para que todos entendessem: “Para escavações arqueológicas as vagas se esgotaram. Há três vagas para trabalhar no Friedhof. Quem aceita, levante a mão”. Apenas dois levantaram o braço: eu e um senhor turco. Em seguida, nós dois entramos no prédio para assinar o contrato de 3 meses.
Depois desse vexame, retirei do bolso o dicionário e então entendi que Friedhof significa cemitério. Segui o endereço dado pela Prefeitura e, chegando, comecei a avistar os túmulos. Pronto, sem dúvida meu Wörterbuch, que ainda preservo, dava a certeza: ia trabalhar no Hauptfriedhof Krefeld: com 54 hectares, parque da maior área verde da cidade, com 83 funcionários. Deram-me a função de jardineiro, em companhia de Wilfried Mohr, que se tornou grande amigo. Dos três meses, no último, promoveram-me para a limpeza do luxuoso salão do crematório.
Além de tais motivos, para mim, não morrerá o Dia de Finados. Com justa razão, são os mortos que se distanciam dos vivos…
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