
Em Brasília, fala-se de poder. Na capital da Paraíba, João Pessoa, fala-se de obra feita. A distinção não é retórica. É quase um método. João Azevêdo Lins Filho, governador do Estado, engenheiro civil de formação, professor por mais de três décadas e gestor público moldado na prática, construiu uma narrativa rara na política brasileira contemporânea: governa sem estridência, cresce sem alarde, entrega sem teatralidade. E mantém índices de aprovação acima dos 60% num país atravessado por polarizações quase insolúveis.
Durante a sua mais recente missão europeia, João Azevêdo consolidou em Lisboa dois movimentos que traduzem a ambição internacional da Paraíba: inovação e turismo como vetores complementares de desenvolvimento.
Em Lisboa inaugurou o Paraíba TecHub, instalado no The Five Cowork Living, criando uma base permanente para startups, investigadores e empresas do estado que pretendam operar no mercado europeu. A iniciativa, desenvolvida em parceria com o Movimento pela Utilização Digital Ativa (MUDA), funciona como ponto de apoio para internacionalização, capacitação e captação de investimento. “Estamos a inaugurar a nossa casa em Lisboa. Um espaço que oferece a oportunidade real de abrir mercado na Europa”, afirmou o governador.
A agenda incluiu ainda a formalização, na Bolsa de Turismo de Lisboa, de um acordo com o grupo português Vila Galé para a instalação de um hotel de alto padrão no Centro Histórico de João Pessoa, num investimento estimado em 80 milhões de reais. A unidade integrará o processo de revitalização urbana da capital paraibana, onde o governo já aplicou cerca de 150 milhões de reais.
Inovação tecnológica e requalificação patrimonial, dois eixos distintos, uma mesma estratégia: projetar a Paraíba para além das suas fronteiras.
“Os extremos nunca levaram a nada”, diz em entrevista exclusiva à Forbes, com a serenidade de quem prefere a régua ao megafone.
O engenheiro que virou Estado
Nascido em João Pessoa, a 14 de agosto de 1953, filho de uma família da classe média paraibana, João Azevêdo fez o percurso clássico de quem acredita na educação pública como ferramenta de ascensão e transformação. Estudou na Escola Técnica Federal da Paraíba, formou-se em Engenharia Civil pela Universidade Federal da Paraíba e regressou à sala de aula como professor do Instituto Federal da Paraíba, onde lecionou disciplinas que iam da Topografia à Programação, numa época em que a informática ainda dava os primeiros passos no Brasil.
Antes de ser governador, foi desenhador, topógrafo, engenheiro, diretor de planeamento, secretário municipal, gestor de infraestruturas, responsável por recursos hídricos, meio ambiente, ciência e tecnologia. A sua trajetória não nasce nos partidos, nasce nos projetos.
Essa matriz técnica é decisiva para compreender o político. “A profissionalização da gestão é fundamental. Você tem de ter as pessoas certas nos lugares certos”, afirma. E, num sorriso que mistura convicção e ironia, acrescenta: “Como eu sou engenheiro, até acho que deveria ter mais engenheiros no governo”.
Talvez não seja coincidência que a Paraíba tenha alcançado, sob a sua liderança, rating A do Tesouro Nacional por cinco anos consecutivos e classificação triple A pela S&P Global Ratings. Numa federação em que muitos estados lutam para equilibrar contas, a Paraíba acumula superavit e capacidade de investimento.
Mas os números, por si só, não explicam o fenómeno.
A Paraíba como ideia de futuro
Durante décadas, o Brasil foi visto e contado a partir do eixo Rio de Janeiro–São Paulo. O Nordeste era frequentemente reduzido a estereótipos: seca, pobreza, migração. João Azevêdo decidiu inverter essa narrativa: “Há uma leitura equivocada de que o Norte é apenas floresta, que o Nordeste é apenas seca e que o Sul e o Sudeste é que são o grande Brasil. E, na verdade, não é assim.”
Sob a sua governação, a Paraíba passou a reivindicar outro estatuto: o de “estado do conhecimento”. O território, com pouco mais de 500 quilómetros de leste a oeste, abriga universidades distribuídas por todas as regiões, o que representa uma capilaridade rara no país. E é ali que se desenha um projeto ambicioso: a instalação do maior radiotelescópio da América Latina e do primeiro computador quântico do Brasil. “Estamos a implantar um centro internacional de computação quântica. Será o primeiro computador quântico do Brasil a ser instalado e será na Paraíba”, detalha em tom claramente orgulhoso.
No sertão, onde a paisagem já foi símbolo de escassez, nasce o Complexo Científico do Sertão, integrando paleontologia, arqueologia, astronomia e formação avançada. “Descobriu-se que se conhecia muito do universo. Na verdade, só se conhece 5%. E esse radiotelescópio será o único no mundo a fazer pesquisas sobre energia e matéria escura.”
Não é apenas desenvolvimento regional. É posicionamento geopolítico.
Turismo, tecnologia e legado
Ao mesmo tempo que investe em ciência de fronteira, o governo impulsiona o Polo Turístico Cabo Branco, com mais de 14 mil leitos contratados, o equivalente à capacidade atual da capital. Resorts, parques temáticos, infraestrutura urbana e um novo centro de convenções em Campina Grande desenham uma estratégia integrada.
“Não é apenas turismo. É tecnologia associada ao turismo”, sustenta o homem que em 2022 foi reeleito governador com 1.221.904 votos (52,51% dos votos).
A gestão, insiste, precisa de olhar simultaneamente para o futuro e para as dívidas sociais do presente. “Estamos a falar de computação quântica, mas eu também tenho de olhar para a pessoa lá na ponta que não tem água na sua casa.” Uma frase que pode resumir os seus dois mandatos à frente dos destinos da Paraíba.
Entre pontes de 500 milhões de reais, canais de um bilião e programas de 200 creches distribuídas pelo estado, o governador recusa escolher uma única obra como símbolo. “Eu não vejo uma decisão isolada. É um conjunto. Estamos a deixar um legado. E, isso, é que relevante”. Talvez seja essa a sua assinatura: a recusa do gesto grandiloquente em favor da consistência estrutural. E deixa o desejo: “Espero que quem me suceda faça muito mais do que eu fiz.”
O equilíbrio como estratégia
Num Brasil em que a política se organiza em trincheiras ideológicas, João Azevêdo governa pelo centro-esquerda pragmático, defendendo a iniciativa privada como parceira do desenvolvimento.
“Não há como promover desenvolvimento sem a iniciativa privada. Quem gera emprego e renda é a iniciativa privada, a partir do ambiente de negócio que o poder público tem a responsabilidade de criar”, sustenta. A sua lógica é simples: quando um empresário chega com um projeto, “eu digo: agora é nosso”. O Estado como facilitador, nunca como obstáculo.
Durante a pandemia, João Azevêdo enfrentou simultaneamente a crise sanitária e um ambiente político adverso. Entre 2019 e 2022, com um governo federal “absolutamente contrário” à sua gestão, viu “fecharem-se todas as portas dos bancos públicos”. As decisões tomadas foram, admite, “difíceis e desgastantes”, mas inegociáveis: “O objetivo era salvar vidas. Não havia outra forma.”
O isolamento institucional forçou a Paraíba a realizar um ajuste fiscal profundo. “Tivemos que fazer um ajuste tão grande que nos abrimos para o mundo.” O resultado foi estrutural: o estado passou a operar com o Banco Mundial, o Banco Interamericano de Desenvolvimento, a Agência Francesa de Desenvolvimento, o FIDA e o NDB, o banco dos BRICS. Para a oposição, seria sorte. Ele responde com serenidade: “Eu comando um time. Foi a competência dessa equipa que colocou o Estado nessa condição.”
Mais do que resistir, a Paraíba saiu preparada para crescer. No pós-pandemia, o PIB avançou acima da média do Nordeste e do Brasil, com a indústria a registar 11% de crescimento, consolidando uma reputação de solidez que hoje sustenta a sua ambição nacional.
Um jornalista do estado vizinho de Pernambuco afdirmou que “na Ásia há os tigres asiáticos. No Brasil não há tigres, mas tem onça. A Paraíba é a onça do Brasil”. João Azevêdo não reivindica o título, mas aceita a metáfora com humor contido.
A ambição de Brasília
Em abril, deixará o governo para disputar uma vaga no Senado. A decisão, garante, não é pessoal: “É um projeto pensado pelo partido (Partido Socialista do Brasil), incentivado pelo presidente Lula.” E conta o mote das conversas que mantém com o atual Presidente do Braisl: “Cada vez que me encontro ele me cobra de certa forma, dizendo que a gente precisa ter no Senado essas discussões sobre as coisas que realmente importam ao Brasil e ao seu povo”.
Mas há algo mais profundo nessa ambição. Uma inquietação com o rumo do debate nacional. “Hoje a polarização fez com que o Brasil esquecesse seus próprios problemas. O Congresso não discute mais os grandes projetos de desenvolvimento. Só se discute poder.”
Levar ao Senado a experiência acumulada no Nordeste e a convicção de que desenvolvimento se constrói com método, dados e visão de longo prazo é o próximo passo natural. “Se essa for a opinião da população, eu quero contribuir com essa discussão. Quero fazer a defesa da região e tratar de interesses coletivos.”
O homem por trás do cargo
Casado, pai de três filhos e avô de seis netos, João Azevêdo mantém uma imagem pública de discrição. A popularidade elevada, insiste, não é pessoal. “É a avaliação de todo o governo, de toda a equipa.”
Mas há algo de pessoal na coerência entre o engenheiro que desenhava projetos urbanos nos anos 1970 e o governador que hoje desenha ecossistemas de inovação. A mesma crença na estrutura, na base sólida, no cálculo antes do discurso.
Talvez seja isso que fascine: a combinação improvável entre o sertão e a computação quântica, entre a ponte física e a ponte diplomática com Lisboa, entre a gestão fiscal rigorosa e o sonho de redesenhar o papel do Nordeste no Brasil.
Quando fala do voto, ele descreve-o como “a transformação da sua vida. A esperança que se coloca ali”. É uma definição técnica e poética ao mesmo tempo, como se a política fosse, afinal, uma equação humana.
Se chegar ao Senado, levará consigo essa engenharia do possível. Se não, deixará uma Paraíba reposicionada, mais visível, mais competitiva e, sobretudo, mais confiante no seu próprio valor.
Num país que tantas vezes se perde em ruído, João Azevêdo construiu a sua força no silêncio da obra concluída. E talvez seja essa a sua maior marca: provar que governar ainda pode ser um verbo concreto.
Fotos: Camila Medici