Pular para o conteúdo

Blog do Vavá da Luz

Filosofia no cantar junino(Professor Damião)

 

É abusiva a introdução de expressões, de duplo sentido, nas canções, puxadas a acordeom e zabumba, o que Freud explica… Mas, por outro lado, há letras, inspiradas na Filosofia, na Sociologia e nos valores culturais que descrevem costumes cantados, com profundidade e fundamentação em versos originais, por analogias com as belezas da natureza e outros metafóricos desejos. Assim sensibilizado, o professor Severino Elias enviou-me uma coletânea de forrós e música junina, com exegese de Melina Vasconcelos, sob o título Lapadas de Forró, analisados antropológica, sociológica e filosoficamente, como Tareco e Mariola, composição de José de Souza Dantas Filho e Luiz Gonzaga do Nascimento, sempre maravilhosamente interpretada pelo paraibano de Monteiro, Flávio José. O grito combativo é o do que ninguém mude o seu verso, com respeito, preserve a saudade, a memória, mesmo que seja num terreiro de forró, um “cabloco sonhador”, que diminui ou aumenta a sua reza, na mistura do profano com o sagrado, numa beleza em comparação ao duplo sentido do canto do sabiá…
Dentre outras análises, destaco a internacional Feira de Mangaio, de Sivuca e Glorinha Gadelha, sugerida a Sivuca, pela Feira de Itabaiana. Conheci bem esse encontro, na cidade, com gente do campo, o que acontece, desde remota data, todas as terças-feiras. Foi lá, pela primeira vez, que vi, a três metros de distância, a vendetta de um campesino que, por ciúme e disputa de namoro, usou sua peixeira de 12 polegadas, na barriga do seu rival. Nessa feira, havia de tudo, dos cantadores ou leitores de cordel ao indispensável picolé de coco, abacate ou do pó da essência de morango… Era um comércio sortido de armas, coisas da morte, da espingarda a pólvora e chumbo; tecido, chapéus, guarda chuvas, panelas, chocalhos, brinquedos de madeira, gado, porcos e cavalos, selas e arreios. Aves de várias espécies, até o proibido azulão ou canário da terra. Também Zefa de Porcina vendendo rendas, e o raro “parafuso de cabo de serrote”, fumo de rolo, comidas, cachaça, tudo para a vida e para o vício, além dos shoppings de hoje, como o sanfoneiro tocando fole; e, na direção da Gruta Azul, caldo de cana; perto da Rua do Carretel, Maria do Juá, oferecendo-se num tamborete, dando lance, com seu tabuleiro, amendoim, castanha e cocada. Modelo protótipo de uma feira de rua no interior. A de Pilar da minha infância sucede aos sábados… E a Feira de Mangaio reúne, ainda hoje em Itabaiana, tais diversos valores culturais, consegue-se até a proibida venda de pássaros em extinção…
Mas, realço o que, muito antes, despertou-me outro poema, ontológico ou da Filosofia do eu, existencialista, um regresso às distantes circunstâncias, das atuais até os primeiros momentos memoráveis de criança, da origem. Sendo um peixe que, superando o desafio de nadar contra a corrente do rio São Francisco, da sua foz, quase no mar, ao rio Pajeú, com destino ao Riacho do Navio, fonte, ponto de partida, como se fosse toda a origem das águas, que já cumpriram, na praia, o proverbio popular: Todos os rios correm para o mar… Ah! Ser um peixe, no caminho inverso dessas águas… Numa colorida metamorfose; trocando braços por nadadeiras, pele por escamas; tudo num hercúleo esforço para enfrentar a correnteza do rio maior ao menor, até atingir o riacho, enfim, as origens. E sozinho, “sem rádio e sem notícia”, apenas com o desejo desafiador: reviver os momentos em que a gente nasceu. Enfim, o rio que está no mar, ao desafiar o caminho da volta, deverá subir montanhas e serras que desceu, e vez ou outra devir um salto para cima, em vez de uma cascata.

Damião Ramos Cavalcanti

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *