Opinião | “Vavá e a Pedra do Ingá: uma história que precisa ser protegida” – desembargador José Ricardo Porto
Na coluna Opinião do Blog do Clilson desta quinta-feira, o desembargador José Ricardo Porto volta o olhar para um dos mais fascinantes símbolos da memória e do patrimônio paraibano: a Pedra do Ingá. Ao abordar a trajetória de Vavá e sua relação com esse monumento histórico, o magistrado propõe uma reflexão que ultrapassa as inscrições gravadas na pedra: o que fazemos hoje para preservar aquilo que pertence à memória de todos? Entre história, identidade e responsabilidade, José Ricardo Porto lembra que proteger a Pedra do Ingá é também proteger uma parte da história que a Paraíba não pode permitir que o tempo apague.
Vavá e a Pedra do Ingá: uma história que precisa ser protegida.
José Ricardo Porto.
Li com tristeza o recente desabafo de Vavá da Luz sobre os acontecimentos envolvendo a Pedra do Ingá. Não pretendo entrar no mérito de questões administrativas, que devem ser esclarecidas pelas instituições competentes. Quero falar do homem, da sua trajetória e, principalmente, de uma luta que há muito tempo deveria ser de todos nós.
Vavá e a Pedra do Ingá se confundem na própria história.
Durante anos, sábados, domingos e feriados, ele esteve ali. Recebeu visitantes, cobrou providências, denunciou problemas, divulgou aquele monumento e procurou despertar nas autoridades a consciência de que a Pedra do Ingá não é simplesmente uma atração turística da Paraíba.
Estamos falando de um dos mais importantes sítios arqueológicos brasileiros.
Tombadas pelo IPHAN desde 1944, as Itacoatiaras do Rio Ingá possuem inscrições cuja origem, a época em que foram produzidas e o seu significado ainda permanecem cercados de indagações. O próprio IPHAN reconhece a importância arqueológica do sítio. Mais do que isso: as Itacoatiaras integram a Lista Indicativa brasileira para uma futura candidatura a Patrimônio Mundial da UNESCO.
E é exatamente aí que a questão se torna ainda maior.
Proteger a Pedra do Ingá é proteger uma página da nossa história que ainda não conseguimos ler por inteiro.
Aquelas inscrições atravessaram séculos sem que se tenha uma explicação definitiva sobre quem as produziu, quando foram feitas e o que pretendiam transmitir. Esse mistério aumenta ainda mais a responsabilidade de preservá-las.
A Pedra precisa de proteção permanente. Precisa de vigilância, conservação especializada, segurança, pesquisa científica e controle responsável da visitação. Precisa, acima de tudo, de uma política pública que não dependa da vontade ou do esforço isolado de uma pessoa.
Governos passam. Prefeitos passam. Secretários passam. Gerações passam.
A Pedra precisa permanecer.
E não se pode contar a história recente da Pedra do Ingá sem falar de Vavá da Luz. De certa maneira, a história de Vavá e a história recente da Pedra caminham juntas. Uma se mistura à outra pela convivência, pela dedicação e, sobretudo, pela insistência em não deixar aquele patrimônio cair no esquecimento.
Pode-se concordar ou discordar de Vavá em questões pontuais. Isso faz parte da vida. O que não considero justo é permitir que circunstâncias momentâneas apaguem tantos anos de dedicação de um homem a Ingá, à sua gente e à Pedra que ajudou a tornar conhecida muito além das fronteiras do município.
As instituições devem fiscalizar. É obrigação delas. Eventuais dúvidas devem ser esclarecidas com absoluta transparência.
Mas fiscalizar não significa apagar biografias nem desconhecer serviços prestados.
Talvez tudo isso sirva para chamar novamente a atenção da Paraíba e do Brasil para uma pergunta que considero muito mais importante:
Estamos cuidando da Pedra do Ingá como ela merece?
Não basta admirá-la. Não basta fotografá-la ou apresentá-la como atração turística. É preciso assegurar recursos, pesquisadores, conservação, segurança e uma estrutura permanente de proteção.
E aqui cabe um apelo ao governador Lucas Ribeiro. Não um apelo político, mas um apelo em defesa da memória paraibana: que o Governo do Estado, juntamente com os órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio histórico e arqueológico, encontre uma solução permanente para proteger a Pedra do Ingá. Que se estabeleça uma estrutura à altura da importância daquele monumento, capaz de garantir segurança, conservação, pesquisa e visitação responsável.
A Pedra do Ingá não pede favores. Pede apenas que a nossa geração seja capaz de entregá-la intacta às gerações que virão.
Porque ali não existe apenas uma pedra.
Ali está gravada uma parte ainda indecifrada da história dos povos que habitaram estas terras antes de nós.
Vavá compreendeu isso há muito tempo. Talvez por isso tenha passado tantos anos cobrando, divulgando, insistindo e permanecendo ao lado da Pedra.
Um dia Vavá não estará mais ali.
Nós também não estaremos.
Mas a Pedra do Ingá precisa continuar atravessando os séculos.
E quando, no futuro, alguém procurar saber quem, em nosso tempo, levantou a voz por ela, certamente encontrará um nome: Vavá da Luz.
A Pedra do Ingá merece proteção.
E Vavá da Luz merece respeito.
O autor é Desembargador do Tribunal de Justiça da Paraíba.
