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Blog do Vavá da Luz

Demo crazy (Irapuam Sobral)


Convém desconfiar quando juventude, artistas, imprensa e academia apoiam os governos.
Em Gettysburg, Lincoln pediu que o governo do povo, pelo povo e para o povo não desaparecesse da Terra. A fórmula atravessou o tempo guardada como relíquia. Ao ouvi-la hoje, às vezes se tem a impressão de que o encanto foi trocado pelo instante. É como ouvir as histórias de reinos e impérios em que os princípios mudam conforme a conveniência de quem conta.
Divido essa história, arbitrariamente, em quatro momentos. De um a outro, o povo corre o risco de virar aquilo que Alyrio, citado por Bartolomeu, chamava de “um pseudônimo”. Sob esse nome, muita gente assina a própria irresponsabilidade ou ignorância.
Na democracia direta dos gregos, os cidadãos se reuniam em assembleia para decidir os rumos da cidade. Já ali os sofistas sabiam o que podia a palavra diante de quem tinha o poder de decidir.
Heródoto conta que, na crise que se seguiu à morte de Cambises, os nobres persas que haviam derrubado o mago discutiram a melhor forma de governo. Otanes defendeu o governo de muitos. Prevaleceu a monarquia, e os candidatos combinaram que seria rei aquele cujo cavalo relinchasse primeiro ao nascer do sol. Numa das versões de Heródoto, o cavalariço de Dario levou às narinas do cavalo a mão com que tocara uma égua. O cavalo relinchou. Dario foi rei.
O segundo momento é o da democracia revolucionária, a que resiste e luta para se estabelecer. Nos séculos XVIII e XIX, as mudanças chegavam com nome e sentido. Discutia-se abertamente de onde vinha o poder e a quem devia caber.
Na primeira metade do século XX, a política populista encontrou nos meios de comunicação uma tribuna maior do que a praça. A velha arte de persuadir ganhou alcance de massa. Entre as duas guerras, o nazifascismo mostrou até onde se podia levar o controle da palavra pública. A guerra derrotou esses regimes. Entre os despojos ficou o hábito de pôr a comunicação de massa a serviço do poder.
Chegamos, assim, ao que chamo de democracia sistêmica. Ela recolhe traços dos outros três momentos. Da democracia direta, toma a aparência de ouvir a todos. Da revolucionária, toma a promessa de mudança. Da populista, toma a arte de falar em nome do povo.
A facilidade de falar e de ser ouvido dá a impressão de que o poder está ao alcance de todos. Ao mesmo tempo, o governo pode escolher quais grupos ouvir e apresentar a voz de cada um, conforme a ocasião, como se fosse a voz do conjunto. Assim, pode até desconsiderar a maioria em nome de uma representação que ele próprio montou.
Se a democracia é o esfarelamento do poder, a democracia sistêmica recolhe os farelos. Ao controlar a linguagem, a comunicação e até as regras do devido processo legal, o governo passa a escolher o povo que quer governar.
Na democracia sistêmica, o relicário de Lincoln virou caixa de Pandora nas mãos de Epimeteu e abriu-se sem os cuidados que pediam as palavras de Gettysburg. Dele saiu a velha fórmula virada do avesso. Um governo do governo, pelo governo e para o governo. E o povo, que naquelas palavras originais aparecia três vezes, acabou do lado de fora

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