Morar na sua cidade não é um título, mas deve ser uma cidadania, participante do Bem Comum, numa sã comunidade. Nasci em Pilar, mas vivi também em Itabaiana e, desde 1958 no Seminário Arquidiocesano, em João Pessoa, o que me proporcionou dois títulos, como cidadão itabaianense e o outro como pessoense. Aprendi que, em qualquer circunstância, habitar na cidade exige cidadania. Pode haver até cidadania sem título, mas título sem cidadania nada significaria. Seria uma garrafa, com rótulo, mas vazia. O conteúdo dá significado ao título, como a substância, aos entes, às entidades, sejam autárquicas, sociológicas ou históricas. Ninguém tolera se considerar pessoa sem conteúdo. As outorgas de títulos continuam, vereadores ou deputados estaduais justificando correlação de cidadania entre o outorgado e a cidade ou o estado.
Imaginei o pesadelo de estar numa cidade completamente vazia, abandonada. Porém cheia de ruas, de becos, de casas, de prédios, de igrejas, de praças, de carros, de ônibus e de trens sem passageiros. A natureza ainda vivia, as águas, em lagoas silenciosamente paradas; somente o rio corria, acompanhado pelo vento, fazendo as folhas das árvores se movimentarem. Essas coisas faziam parte da urbs; coisas urbanas, como o pouco esgoto, os abandonados transportes urbanos, os reconhecidos logradouros, coisas apenas coisas, deixadas sem vida, que se inferiorizavam no meio ainda vivo e verde da natureza.
Agoniado pesadelo, ao conceber a cidade morta: nenhuma mulher para o mundo das crianças, tampouco alguma criança para o mundo dos pais, nem sequer um idoso para nos contar o que teria acontecido, como pessoas experientes para orientarem os sem experiência de vida. O bem de todos vem da experiência. Teria sido uma cidade vítima de armas ou de catástrofes; talvez coletivamente deserdada pela fome ou pelo medo. Mesmo dormindo, aparecia um estranho convencimento: sem gente, não há cidade; aquilo era apenas um amontoado de coisas construídas. Havia a urbs, faltava a civitas; a urbs é a estrutura, a civitas, o organismo, sua vida orgânica e social. Para haver cidade, fazem-se necessários cidadãos e cidadãs; e para serem felizes, comportando-se comunitariamente, como gente da cidade ideal, libertando-se da ganância, do “homo lupus homini”, povoando o povoado, a exemplo daquela “primeira comunidade cristã” (Atos dos Apóstolos, 4, 32 a 35).
A tendência de ser feliz na sociedade é a coragem de ouvir e participar do consensus, visando o Bem Comum, numa “sociedade comunitária”, termos usados por Daniel Bell, em Les Contradictions Culturelles du Capitalisme. A eleição, como as atualmente sucedendo, é única circunstância cidadã para se escolher pessoas que se responsabilizem por esses benefícios consensuais ao bem estar de todos. Corajosamente não é o medo, nem a dúvida ou nem a religião, tampouco a promessa do uso da força, de cadeias e presídios, que definem o bom político, mas seu histórico de atitudes e de obras realizadas para não se admitir o temor da aventura. Não há eleição sem escolha, sem o mínimo de comparação das vidas pregressas, sobretudo diante de algum candidato que não respeite a democracia. Repito: ninguém escolhe sem comparar. Conduta reprovável seria retroagir às eleições capitaneadas pelos então “proprietários” de redutos eleitorais; ou à compra de voto, em dólar ou em real, repudiada pelos que querem o bem da coletividade e o devido respeito à Justiça.
Há decepções experimentadas e comprovadas, que podem orientar o povo a simpatizar com candidato que já demonstrou o bem-fazer ao que o Bem Comum exige. Verifique-se a história do candidato, sua seriedade com a coisa pública, que proponha consistente projeto de política pública ao Bem Comum.
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