Era apenas um cabo de vassoura ou coisa parecida, um pau de marmeleiro como aquele também usado, com brabeza, no castigo da correção disciplinar. Bastava a criatividade de colocar-lhe arreios, feitos de cordão ou de qualquer barbante de sisal para o comando daquela inventada montaria, ao colocá-la entre as pernas. Assim dava-se vida à madeira morta, cujas patas eram nossas pernas, nossos pés. Punha-se de pé o cavalo de pau, andava, trotava e, sobretudo corria, parte das corridas pelas “largas” e compridas calçadas de Pilar.
Havia cavalos de verdade dos donos de fazenda, dos vaqueiros, dos campesinos, e algumas vezes, de cangaceiros ou de ciganos. Mas os nossos cavalos de pau eram tratados como animais de verdade, inclusive descansando debaixo das árvores, pendurados em grandes pregos, enfiados nos pés de fícus, ainda hoje enfeitando a principal rua da cidade. Da extremidade preferida fazia-se a cabeça, com três pontos como olhos e narinas, um traço era a boca, sob o qual dava-se um corte para a rédea não escorregar ao pescoço. Era um bem comum à meninada, pobres ou mais menos ricos brincavam, e cada um tinha seu cavalo pau que, em casa, dormia guardado ao lado das vassouras.
Da palavra “cavalo” muitas outras coisas derivam, em forma de conceitos, de ideias, de denominações, de metáforas ou analogias. Até para significar exagero: Ele come como um cavalo; para ganhar dinheiro, ele trabalha como um cavalo; e noutros assuntos impróprios… Em latim, aprendi que seria equus; em grego, híppos, daí hipódromo, o que não havia para a simplicidade do nosso cavalo de pau.
Para discernir a origem e a perfeição da melhor ideia, em termos de qualidade e quantidade, exalto a extraordinária comparação de Gallileu Gallilei, em Il Saggiatore, analogizando com o cavalo para definir a ação de raciocinar ou de ter uma ideia: “Se raciocinar sobre um problema difícil fosse a mesma coisa que carregar pesos, então muitos cavalos carregariam mais sacos de trigo que um só cavalo (…) Mas, raciocinar é como correr, e não como carregar peso. Assim, um cavalo de corrida sozinho sempre correrá mais do que cem cavalos frisões”.
De modo que raciocinar ou chegar à conclusão da melhor ideia não é uma ação de força, mas de rapidez e de agilidade intelectual, de raciocínio. Portanto, a decisão da maioria, numa assembleia, poderá não ser a melhor do que a da minoria ou a de uma só pessoa… Contudo, deixe-se claro tal argumento não invalida a regra ou as leis que preferenciam a decisão da maioria. Também advirto que tais analogantes ou analogados não se adequam aos nossos cavalos de pau, se alguém pretender fazer analogia com os mesmos cavalos do defensor do Heliocentrismo. Em todos os casos, se a sua opinião é melhor do que a de muitos, isso significa que a da maioria não é a melhor simplesmente por ser a de um maior número de pessoas.
Num paralelismo entre qualidade e quantidade, é preferível correr na pista da qualidade, que lhe dará melhor ideia do que a da quantidade. A estupidez monta nos cavalos que sempre galopam estimulados pela força da quantidade. Enfim, Anatole France, em O Sr. Bergeret em Paris, diz que “Uma besteira repetida por trinta e seis milhões de bocas não deixa de ser uma besteira”…
Ao observar a infância atual que se estriba, diuturnamente, nos celulares e nos games, constato que época qualitativa do cavalo de pau acabou…
DESTAQUE: Assim dava-se vida à madeira morta, cujas patas eram nossas pernas, nossos pés.