CLUBE DA HISTORIA EM : Uma lição sobre fealdade

A beleza não está no rosto, a beleza é uma luz no coração. Kahlil Gibran Uma das minhas recordações mais antigas é a de estar muito bem vestida para ir tirar fotografias. Lembro-me da minha mãe a dar-me banho, a pôr-me loção no cabelo e a encaracolá-lo em torno dos seus dedos. Eu torcia-me e contorcia-me e ela, com toda a paciência, contava-me uma história enquanto me arranjava o cabelo. — Isto vai pôr-te bonita — explicava. — Vais tirar fotografias e queres ficar bonita, não queres? Estávamos no início dos anos 50, e essa era a época em que as senhoras usavam chapéu, luvas e meias de nylon. Os homens vestiam fatos de três peças, punham chapéu e usavam lenços. Quer fosse para ir à igreja, às compras, ou a um evento especial, toda a gente vestia a melhor roupa que tinha. Não havia calças de ganga, camisolas desportivas, sapatilhas, ou algo com aspeto largueirão. Vivíamos numa casa de arquitetura anterior à Guerra Civil, no Texas, situada num grande terreno com cerca de oito quilómetros quadrados de área. Por qualquer motivo, atraíamos os animais de estimação abandonados e sem-abrigo de toda aquela área. Se andavam à deriva, vinham ter ao nosso quintal.

À tardinha, o meu avô enchia meia dúzia de taças de metal com sobras e alguma comida de gato da mais barata, e levava-as para o quintal das traseiras. Fazia barulho batendo com as taças umas nas outras e chamava “Gatinho, gatinho, gatinho.” Depois de ele regressar a casa, uma dúzia de gatos bravios vinham a rastejar dos arbustos, vedações e armazéns em redor, e atiravam-se à comida. Por vezes, aparecia também um cão perdido, ou até mesmo dois. Se fossem mansinhos, o meu avô tentava arranjar-lhes um lar. Um dia, em 1950, logo depois do Natal, cheguei da escola, mudei de roupa e agarrei numa sanduíche antes de me dirigir ao salão para ver os meus avós. Fiquei surpreendida ao ver a minha avó sozinha, sentada a bebericar café. — Onde está o avô? — perguntei. — Está na cave a tratar de um velho gato vadio.

O gato está gravemente queimado, mas o teu avô está empenhado em recuperá-lo. Encaminhei-me para a cave. No passado, já tínhamos suturado uma velha galinha que tinha sido atacada na capoeira, e posto pensos em dúzias de cortes, arranhões e feridas de diversos gatos, cães, porcos, cavalos, e até de uma ou duas vacas. O meu avô não conseguia deixar de se preocupar se visse uma criatura a sofrer. Como estava de costas voltadas para mim, não consegui ver logo o gato de que a minha avó tinha falado. Vi um frasco de unguento e uma das plantas de aloé vera em cima da mesa, juntamente com dois grandes rolos de gaze e alguma fita adesiva. Pensei que talvez o gato tivesse ferido uma pata ou a cauda e aproximei-me para ver se podia ajudar. Quando cheguei junto do meu avô e pude ver bem o seu paciente, senti que todo o ar se sumia dos meus pulmões.

Ofeguei de espanto e de forma tão ruidosa que o meu avô olhou para mim, com um sorriso triste. — Não é nada bonito, pois não? — perguntou suavemente. Não consegui responder. Nunca tinha visto nada tão horrível… Um dos lados da face do gato estava totalmente desprovida de pelo e pele, a orelha direita estava completamente queimada e um dos olhos estava também tapado por uma queimadura. Havia grandes escaldadelas nos flancos e nas costas, e faltava-lhe a cauda. As suas pernas e pés apresentavam feridas e estavam em carne viva, e o gato limitava-se a ficar ali estendido, a tremer, nos braços do meu avô. — Ele vai morrer? — sussurrei. — Não, se eu conseguir impedi-lo! — disse o meu avô com lágrimas nos olhos. — Como é que isto aconteceu? — perguntei. — Deve ter ficado com frio e tentou entrar para a cave. Imagino que terá escorregado quando passou pela janela e caiu atrás da caldeira. Como estava sempre a ouvir um miado fraquinho, vim cá abaixo e encontrei-o. Já tinha conseguido trepar e sair das traseiras da caldeira. — Mas ele é um gato selvagem, não é? Como te deixa pegar nele assim? — Ele sabe, minha querida, que não vou magoá-lo.

Precisa de ajuda e a dor dele é mais forte do que o medo que possa sentir. — Avô, mesmo que ele viva, vai ser sempre tão feio… — comentei, enquanto olhava para os danos que a caldeira tinha provocado. — E depois? — perguntou o meu avô, com aspereza. — Gostarias menos de mim se eu estivesse queimado e fosse feio? — C-claro que não… — gaguejei. — Tens a certeza? — insistiu, enquanto espalhava a pomada para queimaduras por toda a cara do gato e pelos escassos pelos de uma das orelhas. — Sempre me disseram para não julgar um livro apenas pela capa. Sabes o que é que isso quer dizer? Eu acenei com a cabeça. — Quer dizer que um livro pode ser bom, ainda que a capa não o seja. — Certíssimo! — sorriu o meu avô. — É importante ter bom aspeto, porque a maior parte das pessoas são demasiado apressadas a julgar pelas aparências.

No entanto, é ainda mais importante teres tempo para conhecer as pessoas e descobrires se se trata de uma pessoa boa, amável, alguém que possa valorizar a tua vida. Não deves ligar-te a pessoas que são más e que não demonstram qualquer respeito pelos outros. Os animais não se importam se és popular ou se não és. O que preocupa os animais é se estão quentinhos no inverno, frescos no verão, se têm comida suficiente para não sentirem fome, e amigos com quem partilhar as suas vidas. Eles não pedem muito e apenas julgam atos, não aparências. O meu avô continuou a tratar do pobre gato, espalhando-lhe unguento nas queimaduras, ligando-lhe os ferimentos, e sussurrando sem parar palavras doces e reconfortantes. Nesse dia, passámos uma hora na cave. Atámos ligaduras e aplicámos a seiva refrescante da planta de aloé vera nos sítios com ferimentos mais graves. Durante o mês que se seguiu, todos os dias o meu avô e eu mudámos pensos, aplicámos unguentos e alimentámos à mão o gatinho ferido.

Ele recuperou, mas os ferimentos deixaram marcas na sua aparência: perdeu o uso do olho direito, que permaneceu fechado, e a sua orelha era pouco mais do que um pequeno e ralo tufo de pelos. O pelo nunca mais voltou a crescer sobre as cicatrizes das queimaduras, tanto as da cara como as do corpo. Mas o que eu descobri foi que a beleza do brilho no seu olho bom, o suave ronronar que saía do seu peito cheio de cicatrizes, e o roçar macio da sua cabeça mutilada na minha perna me transmitiam uma sensação que nunca antes tinha experimentado. Quando peguei no Lucky, o seu novo nome, nos meus braços, não vi um gato feio. Vi um gato cheio de amor e dedicação, e feliz por estar vivo. Aquele gato mudou para sempre a minha forma de ver as coisas. Aquele gato, o meu avô e o conselho que ele me deu abriram-me portas que eu nem sabia que existiam.

Comecei a olhar para os meus colegas de forma diferente. As pessoas bonitas deixaram de ter tanta importância para mim, e encontrei imensos amigos novos que fizeram dos meus anos na escola os melhores de todos. Nunca fiz parte da lista dos mais populares, mas não me importei. Nunca fui a mais bonita, mas isso não importava. Tal como o Lucky, os meus amigos sabiam ser amigos, sabiam amar, rir e apreciar a vida. Nenhum deles era feio ou bonito. E descobri que há uma linha ténue entre os dois conceitos e que essa linha ténue fica dentro de cada um de nós. Ainda gosto de me apresentar da melhor maneira, mas o que procuro agora é o que está no interior das pessoas. No final de contas, é onde a verdadeira beleza se encontra. “Feio” é uma palavra que define os atos de uma pessoa, os sentimentos, a forma de estar na vida. E, quanto a mim, isso nada tem a ver com a aparência.

 

Bobbie Shafer