CLUBE DA HISTORIA EM : Travessia noturna para a liberdade


Uma vez, em 1863, atravessei cerca de 12 pessoas numa só noite.
Alguém deve ter-nos visto, porque foram no meu encalço, quando saí do barco, no Kentucky.
Desse dia em diante, nunca pararam de me perseguir.
Arnold Gragstonª
Se fechar os olhos, ainda consigo lembrar-me da minha adolescência e da cabana de pinho
onde nasci, na manhã de Natal. Daí o meu nome, Christmas John.
Consigo também ver o rio que passava, impetuoso, perto da Casa Grande do velho patrão, no
Kentucky, e cuja largura nos mantinha à distância de uma viagem de barco do Ohio e da liberdade.
Mas, e acima de tudo, consigo ver a Avó Judith, que me criou desde bebé, curvada sobre as suas
panelas de tintura, fervendo e mexendo meadas de fio. Consigo vê-la a pendurar o fio no exterior
para secar, pegando depois numa porção dele para tecer, na casa do tear. Tecê-lo de uma das cores
do arco-íris, saída da sua velha panela. Índigo transformado em puro azul. Folhas de louro em
amarelo sol. Um galho de pinho feito púrpura. E bambu convertido em vermelho vivo, a cor que
arrancou a Avó Judith de África e a levou para a escravatura.
Uma noite, à luz da fogueira, a Avó contou-me a história dos desconhecidos que vieram até à
sua aldeia e que estenderam um tecido de flanela vermelha diante dela. Era tão bonito que ela o
ª O seu relato e os de outros na WPA’s Slaw Narrative Collection serviram de inspiração para este livro.
agarrou logo. Contudo, continuaram a aliciá-la com peças cada vez maiores, até que a levaram a
atravessar um rio e a subir a um barco.
— Meu Deus, filho — chorava a Avó Judith — quando aquele barco partiu, eu desatei num
pranto para ir para casa. Mas o barco continuou a navegar pelo oceano fora e a bela cor vermelha
tornou-se, para mim, a triste cor da escravatura.
Depois, a Avó Judith falou tão baixo que nem mesmo a
escuridão conseguia ouvi-la.
— Mas agora, Christmas John, temos uma hipótese de
descobrir a cor da liberdade! Há um homem do outro lado do rio que
tem um posto de apoio a escravos fugitivos. Molly, a filha do Cook,
vai tentar ir até lá amanhã, quando não houver lua. Peço-te que a
leves.
Permaneci tão calado que se podia ouvir o som de uma agulha
a cair sobre penas. Já tinha vivido doze verões e era um rapaz
entroncado, mas senti-me tão frágil como um bebé, ao ouvir aquele
pedido.
— Eu sei que tens medo, filho — disse a Avó Judith — mas aquilo que assusta a cabeça faz-se
melhor com o coração. O Patrão deixa-te ir, porque ainda és jovem. Poderás escapulir-te e regressar
antes do amanhecer. Eu ficarei aqui a rezar, à espera de saber que cor usou a Molly para ir ao
encontro da liberdade.
Eu já via o capataz, no dia seguinte, a açoitar-me as costas com o chicote de couro… Mas,
depois, vi os olhos tristes e enormes da Molly a olhar para mim.
Quando anoiteceu, fui procurar o velho barco, que tinha sido escondido pelo dono do posto
na parte mais arborizada do leito do rio. O barco estava tão gasto pelo tempo que, enquanto a Molly
se esgueirava lá para dentro, rezei para que nos levasse em segurança. Estava escuro como breu e
eu não conseguia vê-la, mas sentia os seus olhos. Não nos atrevíamos a falar. Eu apenas remava sob
um frio intenso, rezando para que ninguém ouvisse o barulho dos remos batendo na água. A
corrente puxava, forte, e o meu coração martelava. Tudo o que sabia acerca da margem do Ohio
resumia-se a remar em direção a um farol e a um sino. Estariam ali patrulhas com chicotes à nossa
espera?
Finalmente, vi uma luz num ponto alto e remei até lá. Dois homens apareceram, vindos das
sombras. Um deles agarrou a rapariga e o outro agarrou-me a mim! Pensei que tínhamos sido
apanhados, quando uma voz, que parecia uma sirene de nevoeiro, me perguntou:
— Tens fome, rapaz?
Sem poder falar, limitei-me a abanar a cabeça negativamente. Concluí que aqueles homens
deveriam ser os donos do posto. Mesmo antes de ir embora, lembrei-me de perguntar à Molly de
que cor era o vestido que usava. “Azul,” chegou a resposta sussurrada. Foi a única palavra que disse
durante toda a noite. Mais tarde, quando o contei à Avó Judith, já na nossa cabana, a resposta
provocou-lhe um belo sorriso.
Após aquela primeira viagem, não dormi tranquilamente durante semanas. Percebi que
ninguém fazia a mais pequena ideia do que eu tinha feito. Aos poucos, fui tomando gosto pela ideia
de ajudar os outros a atravessar o rio. A Avó Judith também sentia o mesmo e dizia que, enquanto
nos tivéssemos um ao outro, iríamos conseguir sobreviver por mais uns tempos. Em breve, passei a
fazer três ou quatro viagens por mês. Às vezes, levava duas pessoas; outras vezes, um barco
carregadinho delas.
Encontravam-se comigo a céu aberto, na escuridão das noites sem lua, e diziam a senha
retirada da Bíblia: “Menare”. E eu atravessava-os a remos para o outro lado do rio, naquele velho
barco que se tornou meu amigo. Noite após noite, ele protegia-me e ao meu segredo, enquanto eu
me apressava a voltar para a escuridão. O barco e
eu chegávamos à margem, no preciso momento
em que a estrela da manhã iluminava o céu.
— De que cor é a liberdade esta noite,
Christmas John? — perguntava a Avó Judith,
quando eu me esgueirava para dentro da cabana.
Eu dizia-lhe “amarelo”, “índigo”, “verde”,
conforme as cores usadas pelas pessoas naquela
noite.
Pessoas que eu conseguia tocar, mas nunca ver.
Um dia, vi a Avó Judith a preparar as cores na sua velha panela, tingindo os tecidos. Disse-me
que tinha tido uma visão, num sonho, que lhe dizia para fazer uma colcha e que os quadrados da
colcha deviam refletir as cores da liberdade, como se fossem um arco-íris.
— Quando faltarem apenas dois quadrados para acabar, o nosso trabalho aqui estará
concluído. Depois, Christmas John, — dizia ela, estremecendo e inclinando-se mais — o sonho diz
que temos de dominar o rio, porque o perigo vai-se tornar terrível.
Noite após noite sem lua, eu fazia as viagens no rio, enquanto, quadrado a quadrado, a colcha
da Avó Judith crescia. Em breve, um ano inteiro tinha passado. O Patrão tinha-me posto agora a
trabalhar nos campos e eu tinha de correr mais riscos para me esgueirar.
Então, uma noite por alturas de julho, quando o milho verde estava já maduro para comer, saí
do barco e ouvi latidos de cães a cercar a caça ali perto. Escondi-me no cimo de uma árvore,
tremendo tanto que quase caí. Graças a Deus que a Avó Judith tinha cosido e atado aos meus pés
pequenas bolsas cheias de nabo selvagem moído! A sua raiz cheirava fortemente a pimenta e
impedia os cães de seguir o meu cheiro.
— Terias seguramente sido morto! — exclamou a Avó Judith, quando lhe contei dos cães.
Depois, segurou a colcha à luz que emanava da fogueira de gravetos de pinho. Faltavam dois
quadrados para unir o tecido de uma ponta à outra.
— Veste isto — disse a Avó Judith, enquanto me entregava uma bela camisa nova que tinha
tecido e tingido. À luz exígua, a sua agulha passava, cor de prata, para cima e para baixo, à medida
que cosia um novo retalho na colcha. Era da cor da minha camisa. Vermelho vivo. Sorriu:
— Esta é a tua cor da liberdade, Christmas John, porque esta noite vais remar rumo à tua
segurança.
— Mas onde está o teu retalho da colcha, Avó Judith? — perguntei. — Vamos os dois juntos!
— Isso é uma patetice, filho!— disse ela, abanando a cabeça. — A estrela da manhã está
quase aí e aqueles cães estão por todo o lado. Eu só faria com que fosses apanhado!
A Avó Judith colocou a colcha quase acabada nas minhas mãos, chegou a sua face à minha e
disse numa voz forte:
— Christmas John, vais levar as minhas cores
até ao lado da liberdade, onde elas pertencem. Não
chores por mim, filho, porque o amor não acaba
por causa de um rio e nenhum rio é
suficientemente largo para nos separar.
Depois, abraçou-me com força e empurroume
delicadamente para fora. O coração doía-me tanto que pensei que ia rebentar. Lancei-me mais
rápido do que um cavalo selvagem pela floresta adentro, mas a certa altura os meus pés
abrandaram. Uma brisa acariciou-me a face. Olhei para o céu. Ainda nada de estrela da manhã!
Nenhum cão! Como é que podia deixar para trás a Avó Judith?
— Sem a minha Avó, a liberdade não tem qualquer cor para mim — disse, abrindo a porta da
cabana e agarrando nela.
Senti-a a tremer e levei-lhe a mão até ao meu peito que palpitava.
— O que assusta a cabeça faz-se melhor com o coração. Vou levar-te para o outro lado.
Os seus olhos tornaram-me mais doces.
— Louvado seja o Senhor, filho. O teu coração é suficientemente corajoso por nós dois.
Depois, levantou-se para me acompanhar. Tão silenciosamente quanto podíamos, cortámos
caminho através da floresta. Então, comecei a ouvir de novo os cães.
A estrela da manhã elevou-se na noite púrpura, ao mesmo tempo que chegávamos ao barco.
Deslizámos para dentro dele e navegámos em direção à luz e ao sino. Puxei os remos com força.
Ouvia os cães batedores atrás de mim. Caçadores de escravos com armas e tochas varriam a água à
nossa procura. Remei com mais força, rezando para ouvir o som daquele sino. A noite manteve-se
silenciosa por um período interminável. Até que ouvi o sino!
No entanto, por mais que remasse, parecia que a terra não ficava mais próxima.
Finalmente, vi o reflexo do feixe de luz do farol sobre o rio.
Remei em direção a ele. Chegámos à margem exatamente no momento em que pensei que ia
desfalecer. Braços amigos e uma voz de sirene ajudaram-nos a subir para o embarcadouro. O suor
escorregava-nos pela cara abaixo e a Avó Judith chorava, tremendo de medo e alegria. Embrulhei a
colcha à volta dela, como um grande e caloroso abraço, e toquei no único retalho vazio da colcha.
Depois, com o último fôlego que me restava, fiz-lhe a pergunta que ela tantas vezes me tinha feito:
— De que cor é a liberdade esta noite?
— Ó meu Deus, filho!
E deixou ecoar uma gargalhada musical.
— A minha panela de tintura não te ensinou nada sobre cores? Olha para nós, Christmas John!
— gritou ela, levantando os braços em direção ao último suspiro da noite. — Na escuridão das
noites sem lua, tu e eu somos da cor da liberdade, querido. Tu e eu, filho! Tu e eu!
Lentamente, o tom rosa do amanhecer irrompeu no céu. Atrás de nós, a água marulhava
contra as rochas. Voltei-me, uma vez mais, para ver o meu velho e gasto amigo, o barco que nos
tinha trazido — e a tantos outros — para o outro lado do rio, para a liberdade.
No alvorecer desse novo dia, observei-o a baloiçar, tranquilamente.
Já tinha cumprido a sua parte.
ªªª
NOTA DO AUTOR
“Que a estrela da manhã te saúde no teu local de oração” era uma bênção protetora oferecida
por um escravo a outro, quando se organizavam encontros secretos de cariz religioso na floresta, à
noite. À vista da estrela da manhã, a luz mais brilhante a aparecer no céu mesmo antes da alvorada,
os escravos reunidos sabiam que tinham de regressar a casa rapidamente, para não serem
apanhados.
Um conhecimento tão rico sobre a vida dos escravos dentro do sistema da plantação pôde ser
obtido graças a um notável volume de trabalhos conhecido como Slave Narrate Collection1
, que foi
compilado durante a Grande Depressão dos anos 30, quando o Federal Writers’ Project2
1 Em português, A Coleção de Narrativas de Escravos. (N.T.)
incumbiu os
escritores desempregados de entrevistar ex-escravos, que eram ainda crianças durante os últimos
anos da escravatura. Muitos já tinham 80 ou 90 anos, alguns até tinham mais de 100, quando foram
entrevistados. Ao todo, foram registadas mais de duas mil histórias contadas na primeira pessoa.
2 Em português, O Projeto Federal dos Escritores. (N. T.)
Depois de ter lido centenas e centenas destes relatos, começaram a chegar até mim certas
vozes do passado, que comigo queriam partilhar as suas histórias pessoais. Numa manhã de Natal,
um jovem escravo falou-nos das suas corajosas viagens ao atravessar o rio que fluía entre o estado
esclavagista do Kentucky e o estado livre do Ohio. Durante cerca de quatro anos, transportou outros
escravos de barco a remos, à noite, sem se libertar a ele próprio, até que o risco de ser apanhado se
tornou muito forte. Os pormenores do farol e do sino do chefe do posto, a senha misteriosa que os
escravos em fuga usavam e as noites escuras como breu em que ele viajava, tudo isso proveio dos
seus relatos.
Outra narrativa que chamou a minha atenção foi a de uma mulher chamada Granny Judith3
Muitas plantações tinham mulheres como esta, que eram exímias com a sua panela de tintura
e pegavam em plantas e raízes para criar belíssimas cores, que depois usavam para fazer tecidos.
Senti que seria importante enaltecer a expressão artística da panela de tintura como uma pequena
luz de liberdade no mundo escuro de um escravo.
.
Tinha sido atraída para fora da sua aldeia africana por desconhecidos de cara pálida, que estendiam
repetidamente em frente dela um irresistível tecido vermelho, aproximando-o cada vez mais do
barco de escravos, tentando assim que ela subisse a bordo. A Avó Judith e o seu amor pela cor
tornaram-se a inspiração para a personagem com o mesmo nome nesta Travessia Noturna para a
Liberdade.
Finalmente, com a colcha eu pretendi enfatizar o amor no seio da própria família dos
escravos, e usei os retalhos de liberdade cosidos pela avó para mostrar que os laços de amor e
abnegação podem ser mais fortes do que quaisquer correntes que pretendam escravizar o espírito
humano.
Travessia Noturna para a Liberdade é como a colcha da Avó Judith: retalhos de verdade
ligados uns aos outros por vozes vivas da História.
Margot Theis Raven
Night boat to freedom
Farrar, Straus and Giroux, 2006
(Tradução e adaptação

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