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CLUBE DA HISTORIA EM : Millie, uma ratinha muito pequena

Millie, uma ratinha muito pequena
Um vento frio atravessou a floresta.
— O outono está a acabar — disse o Urso à Ratinha Millie. — São horas do meu longo sono
de inverno.
Millie abraçou o Urso, cujo estômago ronronava.
— Tens fome? — perguntou-lhe.
— Tenho, mas se parar para comer ainda acabo por adormecer.
— Então, tens de te apressar a ir para casa. Adeus!
— Vemo-nos na primavera — prometeu o Urso.
O pobre Urso vai adormecer com fome, pensou Millie, ao vêlo
calcar as folhas caídas. Tenho de ajudá-lo!
Millie olhou em volta e viu algumas amoras. Como o Urso
havia de gostar disto, pensou.
Contudo, o arbusto das amoras era muito
alto e a ratinha era baixa. Franzindo o sobrolho, disse:
— Hei de conseguir apanhá-las. Não quero que o Urso passe fome.
Millie tentou saltar, mas as suas perninhas eram
demasiado curtas.
Em seguida, tentou derrubar as amoras com um
pauzinho, mas também não conseguiu.
Avistou, então, um toco de árvore e trepou para cima dele.
— Só me falta um bocadinho — arfou, enquanto se esticava para
alcançar as amoras.
Porém, quando agarrou um ramo do arbusto, começou a oscilar e a escorregar pelo toco
abaixo.
— Ajudem-me, por favor! — pediu Millie, pendurada no arbusto.
Por sorte, a Raposa estava a passar por ali.
— És demasiado pequena para trepar tão alto — comentou a Raposa,
pegando em Millie e pondo-a no chão.
— Eu não sou demasiado pequena. O arbusto é que é
demasiado alto.
— Deixa-me ajudar-te — ofereceu-se a Raposa,
chegando o arbusto para junto de Millie, que logo apanhou as três amoras mais
gordinhas.
— Obrigada — agradeceu a ratinha. — Estas amoras são para o Urso.
Millie dirigiu-se para a caverna do amigo, mas deu-se conta de que as
amoras eram pesadas e foi-as deixando cair uma a uma.
— És muito ambiciosa para o teu tamanho — zombou o Esquilo.
— Eu não sou pequena! — insistiu Millie. — Só não
cresci tudo ainda. E também não sou ambiciosa. Estas
amoras são para o Urso.
— Porque não as arrastas com a ajuda de uma folha?
— sugeriu o Esquilo.
Millie encontrou uma folha grande e empilhou as
amoras nela.
— Obrigada, Esquilo! — agradeceu.
Mas o Esquilo já tinha ido embora pois precisava de
enterrar provisões para o inverno.
Millie puxou a folha com as amoras pela colina
acima.
— Espero que o Urso ainda esteja acordado —
bufou, cansada.
De repente, ouvi uma voz lamuriosa.
— Mas que maçada! Que aborrecido!
O Ouriço tinha algo enterrado nos seus picos.
— É uma noz! — exclamou Millie.
— Que se meteu num sítio bem estranho! — queixou-se o Ouriço.
— Posso ajudar-te — ofereceu-se Millie.
A ratinha pôs-se em bicos de patas e aproximou-se, com cuidado, dos espinhos.
— Já a tirei! — exclamou, triunfante.
— Podes ficar com ela — resmungou o Ouriço, que se afastou a correr.
Millie juntou a noz às amoras. Contudo, quando
tentou puxar a folha, caiu tudo pela encosta abaixo.
Uma amora caiu numa lura de coelho.
Outra rolou para debaixo de uma sebe.
E a noz do Ouriço foi parar a uma poça de água.
— Venham cá! — chamou a ratinha, correndo
atrás delas.
Quando chegou ao sopé da colina, já só restava uma amora.
— Nem sequer consigo correr mais depressa do que uma amora — queixou-se, ofegante.
— Sou mesmo pequena!
Millie sentou-se e suspirou, triste.
Viu um bando de pássaros voar em busca de um lar mais
quente. E sentiu a brisa fresca que agitava as folhas e as pinhas dos
abetos.
O inverno está a chegar e o Urso vai dormir com fome, pensou
Millie.
Pegou na última amora e disse, subindo a colina:
— Uma é melhor do que nenhuma.
Quando chegou à caverna do Urso, este ficou surpreendido por vê-la.
— Não queria que tivesses fome durante o inverno — explicou Millie, oferecendo a amora
ao Urso. — Queria trazer-te muitas amoras, mas sou demasiado pequena para as apanhar,
demasiado pequena para as transportar e demasiado pequena para não deixá-las fugir!
O Urso colocou Millie na sua palma, com gentileza.
— Podes ser pequena, Millie, mas tens um coração MUITO GRANDE!
Apontou para o seu armário e a ratinha ficou espantada com a quantidade de comida que o
Urso tinha armazenado. Este disse:
— As amoras crescem nos arbustos e as nozes nas árvores. Mas os bons amigos não são
tão fáceis de encontrar!
Millie deu ao Urso o seu MAIOR abraço.
E juntos sentaram-se a ver o pôr-do-sol no céu de outono, à espera do longo sono do
inverno


Angela McAlister
A mouse so small
London, Little Tiger Press, 2015