Boqueirão é mais do que um nome. É uma grande abertura entre serras. É passagem de rio entre serras. É caminho de veio de água. É o lugar onde a natureza parece ensinar que toda travessia conduz a um novo horizonte.
Talvez seja por isso que algumas pessoas carreguem um Boqueirão dentro de si.
Não se pode desconectar a origem dessa palavra da história de quem assistiu ao nascimento da cidade e acompanhou a caminhada de seus líderes. Hoje, porém, quero falar de um deles em especial: o professor Carlos Dunga meu Pai.
Sua chegada e seu arranchamento às margens do rio que corria pela garganta do Boqueirão fizeram daquele jovem professor lançar ali o maior desafio de sua vida, honrar a terra que também o viu crescer, como as águas represadas que cobriam recantos, alimentavam esperanças e anunciavam um novo amanhã.
Era o cenecista que se tornaria o professor. Era o professor que seria prefeito e, mais tarde, governador. Sem jamais esquecer suas origens, fez da educação um compromisso permanente, estadualizando escolas e ampliando o acesso ao ensino público e gratuito, sem abrir mão da qualidade que formou gerações de homens e mulheres.
Também esteve ao lado dos irrigantes nos tempos mais difíceis da estiagem. Mesmo quando já não exercia mandato eletivo, nunca se afastou das responsabilidades que assumira com seu povo. Foram anos de trabalho, de convivência, de celebrações, de amizades construídas e de uma presença constante que fez daquele sertanejo um dos mais caririzeiros entre nós, respeitado pela simplicidade e admirado pela coerência.
Com o tempo, compreendi que a relação entre líder e liderado não se constrói apenas com decisões administrativas. Ela nasce da confiança, cresce no diálogo e permanece na memória. É uma ligação que ultrapassa mandatos e atravessa gerações, formando laços que nem o tempo consegue desfazer.
Há líderes que governam pelo poder. Outros conduzem pelo exemplo. O verdadeiro legado é limpo, orgânico e atravessa o tempo. Está nos prados e nas campinas, nas ruas e avenidas, nos prédios e nas casas, nos campos e nas roças. Está, sobretudo, na lembrança agradecida de um povo.
Um líder jamais precisa cobrar a conta daqueles que ajudou. Liderança não se mede pelos favores que exige, mas pelo reconhecimento espontâneo, pelo abraço sincero, pela emoção do reencontro e pelo carinho que permanece quando os cargos já passaram.
Foi assim que aprendi o verdadeiro significado da liderança.
Meu pai, professor Carlos Dunga, construiu um Boqueirão.
Não apenas o Boqueirão da geografia, cercado por serras e banhado pelas águas do rio.
Construiu um Boqueirão de oportunidades, de educação, de esperança e de amor pela sua terra.
E enquanto houver alguém caminhando pelas estradas que ele ajudou a abrir, seu legado continuará vivo, porque existem homens que passam pela história, e existem homens que se transformam em caminho para as gerações que virão.
De um dia de domingo.
Carlos Marques Dunga Jr.
05/07/2026