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Roniquito

Marcos Pires

Apresento a vocês Ronald de Chevalier, um amazonense que fez a vida na boemia e intelectualidade do Rio de Janeiro. Conhecido como Roniquito, fã de música clássica e de William Faulkner, falava fluentemente inglês e francês. Sóbrio ele era um gentleman. Mas quando bêbado (e isso acontecia quase diariamente) tornava-se bélico.
Quando fui morar no Rio de Janeiro no começo dos anos 70, era o único pirralho (18 anos de idade) que frequentava os locais da boemia carioca sem tomar uma gota sequer de álcool, somente para ouvir da mesa vizinha as histórias dos meus ídolos do Pasquim. Muitas vezes fui ao Degrau, ao Antônio e a outros bares e restaurantes cariocas que sabia serem frequentados por Jaguar e sua turma. Foi ali que descobri Roniquito. O timbre da sua voz era inigualável. E que situações ele criava. Depois de insultar a mais não poder o cartunista Otélio Caçador, o pau cantou. Roniquito era magro, pequeno, frágil. Mas a bebida tornava-o gigante. O cartunista começou a dar-lhe uma surra e quando já estava com o pé no pescoço do derrubado Roniquito, parou e perguntou se bastava ou queria mais. Roniquito, quase morto de apanhar gritou do chão: “- Cansou, seu filho da …?”.
Foi ele o protagonista da mais celebre cena no restaurante Antônio. Segundo sua irmã Scarlet Moon no livro “Dr. Roni & Mr. Quito” uns ladrões invadiram o local e trancaram clientes e garçons no banheiro. Quando saqueavam a caixa registradora ouviu-se lá do banheiro a inconfundível voz de Roniquito: “- Rasguem os vales, rasguem os vales”.
Uma vez cruzou com Fernando Sabino num bar e perguntou-lhe quem escrevia melhor, se era ele, Sabino, ou Nelson Rodrigues. Fernando Sabino gentilmente disse que era Nelson Rodrigues. Roniquito emendou agressivamente; “- E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”. Com Antônio Callado fez pior. “- Ô Callado, você já leu Faulkner?” Ante a resposta afirmativa do suave intelectual, sapecou: “- Bem, se já leu Faulkner você sabe que é um b…, né?” Era assim, beligerante.
Morreu um colega de boemia e ele foi ao velório. Sóbrio. Ao chegar lá notou que só duas mulheres estavam velando o morto. Deveriam ser esposa e filha.            Achou aquilo terrível e decidiu telefonar para os amigos. Saiu do cemitério e entrou no bar da esquina para fazer os telefonemas, só que antes decidiu tomar uns gorós. Morto de bêbado voltou ao velório sem ter telefonado para ninguém. E aí notou que anteriormente havia entrado no velório errado, porque na capela seguinte estavam todos os amigos bebendo o morto ao som do violão tocado pelo Delegado Melo Morais, tio de Vinicius. Cumprimentou todos, voltou ao local originalmente visitado por engano onde continuavam somente as duas mulheres. Da porta gritou: “- Defuntinho de m… esse de vocês, né?”.
Quando chegava no “Degrau” ou no “Antônio” e não encontrava qualquer conhecido, gritava: “- Lugarzinho cheio de ninguém, né?”.
Nesse mesmo, digamos, estilo, aqui na Paraíba tivemos M.R., mas essa já é outra história.