Pular para o conteúdo

Blog do Vavá da Luz

Roletas à deriva (Irapuan Sobral )

óbvio não se propaga no caos.

D’O Livro das Indiferenças

 

Uma das hipóteses sobre a chegada do colonizadorportuguês ao Brasil é a acidental. O almirante, meu ancestral, teria sido trazido pelo vento após uma calmariaque deixou as naves à deriva.

A hipótese é severamente contestada pelos fatos, mas ficoucomo trauma psicológico nacional.

Se existe destino, ele não é aleatório — por definição, vem do futuro.

Mas o Brasil é, paradoxalmente, um projeto do acaso. E háinteresse nisso: esse caos oficial esconde todas as mazelas e pudores. Por isso se diz que o óbvio não se propaga no caos.

A inflação ajudou, por muitos anos, a esconder esses efeitosdanosos. Depois, a política e a disfuncionalidadeinstitucional resolveram assumir o serviço.

Perdeu-se a ordem, não apenas como imperatividade, masaté como organização. Não há mais sinais de respeito à Constituição nem garantias efetivas. As decisões são tomadas com base em interesses pessoais, consideradas as partes envolvidas e o humor de quem está eventualmentedisposto a decidir — até mesmo por omissão.

Não há mais nenhum projeto ou plano além das narrativasvoláteis.

O país deixou de possuir continuidade estratégica. Cadagoverno desfaz o anterior como quem invade cidade inimigae precisa apagar seus símbolos. Não existe mais Estado no sentido histórico da palavra — existe ocupação transitória da máquina pública. Obras, programas, prioridades, instituiçõese até conceitos de nação são desmontados conforme a conveniência eleitoral do instante. A República deixou de ser construção; virou saque sucessório.

Numa eleição nacional, a única preocupação dos candidatose da imprensa é com a ficha corrida dos próprios candidatos. O debate se reduz a acusações recíprocas. Isso sugere quepolíticos só falam a verdade quando se acusam.

É uma espécie de garantia do caos: a comparação entre os níveis de corrupção, antes de combatê-la, termina porautorizá-la.

Acabou.

Esse caos apocalíptico tem efeitos práticos sobre a nação, muito além da alienação a que ela é submetida pelasinstituições.

Um desses efeitos é positivo: o apelo à religiosidade. Como o universo oficial é distante e paralelo, o povo — à falta de transparência, moral, acessibilidade e disponibilidadeinstitucional — prefere o mundo transcendental. Se as soluções só podem vir por milagres, que o milagre sejadivino. Os santos de sempre, trazidos pela cultura tradicional, são mais críveis.

Outra consequência é a jogatina. Esse é o lado escuro da força.

Todos disputam o controle do mecanismo: orçamento, regulação, narrativa, tribunais, algoritmos, subsídios, renúncias fiscais e influência. Quase ninguém fala em produzir riqueza real. O debate nacional deixou de girar em torno de trabalho, produtividade, indústria, tecnologia ou infraestrutura. O que prospera é a intermediação. O país vaisubstituindo engenheiros por despachantes morais, produtores por operadores de acesso, prudência pormarqueteiro e planejamento por captura institucional. É um capitalismo de balcão administrado por roletas.

O país virou um cassino — não tão escondido ou devassoquanto o Tayayá — e bets, loterias e jogos de aposta estão à disposição de todo crente.

Os registros das entidades controladoras da idoneidadecreditícia chegaram a tal nível que metade do povo está com restrições; a outra metade está sob o controle de facções quetraficam drogas — o efeito mais mortal, porque nega o próprio futuro.

Aliás, esse futuro está sendo obstaculizado pela rejeição de instrumentos que evitariam a reprodução desse métodocolonial. Até a IA está sendo vítima da burocracia, que tentaa todo custo evitá-la ou regulá-la, porque dispensa omecanismo.

Por fim, a política sinaliza, em todo o território nacional, a predominância do neo-coronelismo disputando eleições, porque controla as máquinas partidárias. E a eleição temmais protagonismo dos órgãos que deveriam apenasorganizá-la do que dos candidatos, que a justificam.

Enquanto isso, o vendedor de cocos passa empurrando seu estoque numa carcaça de geladeira. Ele é, para quem o vê, o oposto da Lei Gilmar.

canal whatsapp banner

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *