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Para sempre Biliu de Campina (Thomas Bruno Oliveira)

 

Biliu de Campina em gravação no Parque da Criança – TB

NA TARDE DA ÚLTIMA segunda-feira, tinha almoçado e começava a organizar alguns papéis. O cotidiano seguia com sua inadiável rotina. Chovia, julho não tem sido só frio como nos últimos invernos, mas acompanhado de braços dados com a chuva, aumentando ainda mais a sensação de frieza. Para onde nos viramos, encontramos pessoas com suas alergias em alta. É tosse, é coriza, um fungado espontâneo. É gripe, casos de pneumonia, de dengue… E assim vamos caminhando. Bem agasalhado, pensava no que ia ler, no que precisava escrever e uma oposição danada ordenando a cama quente e uma boa programação de tevê. Acompanhado de um café quente, resolvo ver as novidades na internet e noto uma movimentação anormal nas redes sociais, e vem à notícia da partida do meu querido Biliu de Campina que estava internado desde a antevéspera de São João. A notícia caiu como uma bomba de São João no meu coração.

 

No momento, ouvia “que nem vem vem” na voz de Flávio José e com aqueles melodiosos acordes de sanfona, não contive a emoção. A mente escavou lembranças, momentos que vivi com ele e resolvo buscar no ‘ao vivo’, qual rádio noticiava ou o homenageava naquele exato momento. Na sequência de frequência passei pela Campina FM, Panorâmica, Correio, Cariri, Metropolitana, CBN, Caturité, Mix, Arapuã e todas seguiam com sua programação normal, obviamente que tempos depois dedicaram momentos em suas programações, mas naquele exato momento nada vi e minha tristeza me levou a rádio Serra Branca FM, do inesquecível Hilton Mota (que também criou a Campina FM), a jornalista C. Lima comentava o falecimento de Biliu, teceu alguns comentários e tocou algumas músicas. Ouvir a rádio caririzeira foi um afago que jamais esquecerei. Recebi ligações de algumas pessoas que sabiam de nossa amizade, liguei para o amigo poeta Z’Édmilson procurando um ombro amigo, quem me apresentou pessoalmente ao cantor e compositor e um dos responsáveis por toda a minha admiração ao mestre.

 
Gravação de vídeo por Xapéu com acompanhamento de J. Edmilson e eu no Parque da Criança. – TB

Em evento em Brasília, ao ser questionado do porquê do nome Biliu de Campina, respondeu: “Porque não nasci em Marte nem em Plutão. Se tem Jesus de Nazaré, Hipócrates de Cós, tem Corcunda de Notre Dame, porque não pode ter Biliu de Campina, Biliu de Campina Grande?” Disse a jornalista. A sua irreverência, inteligência, compasso, ritmo, identidade musical e, sobretudo, a resistência, sempre presente aos seus valores mais genuínos e a tudo que acreditava, o tornou um símbolo na cidade d’O Maior São João do Mundo. Advogado por formação, se esmerou em defender nossa cultura.

 

Me recordo de muitos momentos, do bate-papo no Calçadão à entrevistas que me deu, mas dois deles contarei agora. O primeiro deles, eu com meus dezessete anos curtindo férias em Recife-PE, ouvi um carro de som anunciando o show de Biliu de Campina na ‘Sala de Reboco’, casa exclusivamente dedicada ao autêntico forró pé de serra no bairro do Cordeiro. Chamo meu primo Júnior de Lourdinha e na noite de uma sexta-feira saímos para dançar forró e, quem sabe, namorar. Chegamos logo no início e Biliu cantava ‘Sebastiana’. Com chapéu e camisa xadrez, dançava fazendo suas mogangas. Tentei chegar perto do palco, mas tinha muita gente. Resolvi deixar para falar com ele no fim e dizer que também sou de Campina. Ledo engano. Tinha tanta gente no fim que sequer consegui falar, trocar uma palavra sequer. De volta a minha cidade, “espalhei o boato” do sucesso que foi e muitos esboçaram satisfação.

 

Gravação do DVD ‘Antes que o mundo se acabe’ em 2011. Com José Edmilson e Noaldo Ribeiro. – TB

 

Outro episódio que guardo no coração foi a gravação do primeiro DVD de Biliu chamado ‘Antes que o mundo se acabe’ produzido por Abílio José e sua ArtCom Studio no saudoso Restaurante regional ‘O Mororó’, no bairro da Palmeira. Em uma mesa próximo ao balcão do caixa e saída da cozinha, fiquei na companhia dos amigos  Z’Édmilson, Noaldo Ribeiro e do próprio Biliu, quando ainda estavam nos preparativos. Com o início do show, aqui e acolá, Biliu vinha em nossa mesa e dizia: “peçam aí uma dose dupla de uísque!” E a gente o servia de maneira discreta, passando o copo por baixo da toalha de mesa. Ele bebia, sorria e voltava, isso até Abílio chegar e perguntar: “vocês tão dando o que a Biliu hein?” (Kkkkkkkk) Nada, respondemos! E a noite foi espetacular.

 
Chamada de capa para a ‘Crônica em destaque’ do Jornal A União de 13/Jul/24

O forró “pé e cabeça de serra”, o coco, o repente, a poesia, o verso, o pandeiro, o samba de latada, o sítio Volta dos Paus Brancos, o Coffee Shop São Braz no Calçadão da Cardoso Vieira, o Café Aurora na Praça da Bandeira, a memória dos bares, redutos boêmios da cidade, a Rua Treze de Maio onde morou, o Parque do Povo e o Maior São João do Mundo, os quatro cantos da cidade, a música de verdade, tudo fica menor, tudo fica mais triste. Ir ao Calçadão e não vê-lo, ao Parque do Povo sem ele na programação, é uma perda maior do mundo, será a grande ausência do São João.

 
Biliu no restaurante ‘O Mororó’

Severino Xavier de Souza, o nosso Biliu partiu, virou uma estrela a nos alumiar nos céus da Borborema. A saudade será sempre sentida e sua história honrada na resistência dos valores culturais mais genuínos. Para sempre Biliu de Campina.