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Blog do Vavá da Luz

                Para diferenciar os silêncios (Damião Ramos Cavalcanti)

 

 

          Depois de ter feito tanta coisa, com tanta pressa, correrias e horários no ano que passou, soltaram os fogos de artifícios e foguetões, tudo como no ano passado, sentia o poeta pouca diferença entre os dias que passaram e os que recomeçam, até crianças e outros poetas não saberiam que já era Ano Novo, se  não fossem as razões ditas por suas mães que as vestiram de branco. Algumas delas já não estavam mais alvas, eram calças e bermudas sujas, no futebol, à espera que o espetáculo da partida do ano velho ocorresse, ou melhor, a chegada do Ano Novo acontecesse. Observou o esforço para se diferenciar de outras comemorações. Nos abraços, sorrisos, beijos e gritos, havia algo de misterioso que no silêncio, depois dos estrondos e pipocos daquelas bombas nos céus, determinava a saída da beira-mar para os jardins e terraços das casas que os esperavam. Apenas um aviso rompia o silêncio: – Cuidado com a areia da praia para não sujar o terraço. Era o que parecia ser a primeira preocupação do ano que começava. Mas, quando se esforçou para entender aqueles gestos e aquelas palavras, o entendido nunca é repetido, restou apenas o silêncio que sempre sugere mistérios.
         Durante os foguetões, e seguidos seus percursos, era como eles sugerissem atravessar o oceano, mas nas águas mornas pelo Sol mergulharam os silêncios misteriosos, e nas suas funduras azuis desapareceram. A poesia se esforçava para diferenciar os silêncios, e o Ano Novo envelhecia, mesmo sendo seus primeiros passos, já observados nos abraços de amor, nos apertos dos enamorados que foram ali para isso. Nesse sentido, nada se repete, tudo tem um novo sabor… Caso contrário, algum com gosto do ano que passou. 

          Os passageiros do ano que passou carregam consigo ao ano considerado vazio, memória de tantos dias e noites, com beijos e abraços que não são esquecidos, recordados inesperadamente no Ano Novo. Rememorar preenche novos dias que parecem vazios. E com um beijo, com um abraço, tudo aflora. Os poetas sabem que beijos e abraços bem sucedidos, se recordados, ganham sempre uma nova roupagem. Somente as desconfianças dos que se beijaram perguntam se amor teria acontecido de fato. Na verdade, não se tornam apenas estórias de um tempo passado, mas revividos em tempos futuros. E a passagem do ano novo é circunstância dessas revivências. Por isso o futuro não é completamente vazio, preenche-se com as vibrações do passado. O pensamento só precisa de rememorar coisas gostosas e, como as crianças, comer com os olhos.

          Melhor do que os artificiais fogos em cores, são as cores da realidade na natureza, no mar, nos rios, nos lagos, nas plantas das florestas e dos jardins, nas flores vistas em qualquer tempo, em qualquer ano, sobretudo quando estão em silêncio, apenas interrompido pelo canto dos pássaros. Se podemos comer pelos olhos o que admiramos, a natureza se torna um banquete como o do filme A Festa de Babette.
          E como de costume, depois de se romper o Ano Novo, o jantar, com bacalhau e peru, quase de madrugada, foi servido para completar o que já parecia vazio de outros sabores, do que os olhos desejavam, como o poeta Pablo Neruda que se dizia, ao admirar a Natureza, capaz de beber os mares e comer as montanhas. Sim, e talvez, diferenciando os silêncios…
          

Damião Ramos Cavalcanti

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