Não são os calendários, que organizam nossas vidas, que dizem ser hoje o Dia dos Namorados, tampouco o dia de amanhã, o de Santo Antônio, o “santo casamenteiro”. Aliás, namoro não tem dia, surge num instante, num piscar de olhos, entre dois olhares que se comunicam com eletricidade, luminosos e com energia. Eles se cruzam com intensidade, sem deixarem de se olhar, como não quisessem parar de olhar tanta coisa ou não preverem coisa alguma. Mudos, mas dizendo profundamente muita coisa, sem medir o tempo ou, de repente, fora do tempo, sem querer parar… É um persuasivo instante sem querer parar, mudo, até o dia, talvez, de voarem como o beija-flor, mas como quisessem prometer para depois… Na maioria das vezes, os olhos nunca repetem essa mesma experiência.
Há necessidade de duas pessoas, numa só o olho esquerdo se cruzar com o direito é estrabismo, mesmo se o vesgo narcísico admire extremamente a si mesmo. O olhar estranho e quase único acontece institivamente ou não entre uma e outra pessoa, numa comunhão extraordinária de sentimentos por onde tudo começa ou pode começar. Ao comentar A Bagaceira, com o crítico e escritor Milton Marques, ele foi feliz em escolher que José Américo, inspirado nas atrações entre Lúcio e Soledade, entreolhando-se, revela-nos que “o amor é uma gradação de sentidos, começa pela necessidade de ver”. É disso que se ocupam maravilhosamente, até a distância, os olhos, como a necessidade de amar passasse por eles, fitando-se, sem verem nada mais no mundo, mesmo arrodeados por outras pessoas, que assim permanecem por tempo ignoradas. Quando os atraídos despertam e saem desse êxtase, afastam-se de um prazeroso sonho, real, mas irreal como indescritível no tempo.
Aprendi na adolescência que flertar seria iniciar um namoro que poderia ser sinalizado, ao se piscar o olho esquerdo e olho da pessoa do flirt corresponder. Desde então, os olhos entram e saem de cena. Muito mais do que um toque de mãos, de pés; ou de ombros numa demorada viagem… Tudo do corpo tem certa magia, mas os olhos contêm poder maior, que vem ser falada ao se comemorar, pelo menos, um dos seus vibrantes namoros, sempre recordáveis pelo resto da vida. Ele lembrando-se dela; ela, recordando-se dele, que tudo iniciaram pelos olhos, mesmo que tal romance tenha terminado num amor arreliado. Enfim, os olhos amam como o coração.
Aquele olhar profundo e intensivo, que mexeu com a gente, não se repete como as coisas vistas no quotidiano. Tal olhar ocupa lugar na vida, até em momento da razão, do pensamento. Provoca um sentimento, que, ao contrário de outras visões, espera-se, quer como outros desejos, impera e prevalece, até longe das paixões ou da caça da felicidade, da jovialidade, lida em Schopenhauer; coisa de gente que sente saudade, mesmo distante dos namorados e namoradas.
Mesmo depois daquele olhar, nada ou pouco aconteceu, olhar à procura da paixão, não foi tempo perdido, continua indissociável com importância da vida, acompanhando os sentimentos felizes e, quem sabe, o medo daquilo que poderia ter acontecido. Às vezes tememos também aquilo que nos poderia ter acontecido. Devemos evitar os medos, sobretudo os que nos enfraquecem a coragem do interessante, que advém do amor, como o namoro, iniciado pelo olhar de uma paixão sincera.