
“Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo…”
A renúncia a que Cristo se refere, ao abrir os céus ao homem, talvez possa ser compreendida pela imagem de uma Távola Redonda da alma, inspirada na concepção de Self de Carl Jung: uma mesa em torno da qual se assentam desejos, medos, arquétipos e personagens interiores, enquanto o Self permanece no centro, ouvindo todos, mas decidindo sozinho.
Quem sabe distinguir-se nessa Mesa compreende que nenhuma voz interior governa a sua vontade. Escuta todas; obedece apenas ao que escolhe. Por isso, continua sendo o único responsável pelos próprios atos.
Há, por exemplo, um ladrão sentado entre os convivas, ainda que o homem seja honesto. O mérito não consiste em expulsá-lo da Mesa — isso talvez nem seja possível —, mas em conservá-lo de mãos atadas.
A imagem dessa Mesa me remete à Última Ceia. Já imaginei, em outra oportunidade, os apóstolos como projeções do próprio Jesus, personagens de sua humanidade distribuídos ao redor da mesa, tendo Cristo como centro. Pedro seria o impulso; Tomé, a dúvida; João, a intimidade; Judas, o Ego. Não porque Jesus se confundisse com qualquer deles, mas justamente porque permanecia distinto de todos. Talvez seja essa a imagem mais perfeita da liberdade interior: reconhecer todas as vozes sem entregar a nenhuma delas o governo de si.
Pedro costumava ouvir o seu marqueteiro interior. Queria agradar, aparecer, antecipar soluções humanas para problemas divinos. Cristo, por vezes, repreendia justamente esse Pedro, síntese da condição humana.
Já Zaqueu, como o centurião, conhecia os próprios defeitos porque eles eram públicos. Não procurou escondê-los. Apenas preferiu ser julgado por Cristo. Dessa humildade nasceu uma das mais belas orações da liturgia: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada; mas dizei uma só palavra e serei salvo.”
Eis a humildade: assumir-se.
Mas quem são esses personagens que alimentam a soberba, a ira, a inveja e tantos outros pecados?
Todos os temos. Quando Deus governa a casa, eles permanecem sob autoridade.
O primeiro deles chamarei de Luz de Ferro. É aquele que pretende substituir a luz do céu pela do próprio poder. Promete uma iluminação produzida pela força, pelo conhecimento e pelo domínio. Sua claridade lembra o brilho do ferro em brasa: intenso, sedutor e incapaz de gerar vida.
O segundo é o Dr. Zanata. É o opositor. Vive da reclamação. Alimenta-se de defeitos alheios. Quando não os encontra, fabrica-os. Não busca a verdade; busca o aplauso da crítica. Sua satisfação consiste em proclamar publicamente aquilo que imagina descobrir.
Esses dois personagens chegam, em grande parte, de fora para dentro. Alimentam-se da opinião, da aparência e da necessidade de construir uma imagem agradável num mundo de espelhos.
O último é Ted Mônio. Talvez seja o mais íntimo de todos. Ele se projeta de onde se hospeda. É aquele que se deixa iludir e, pior ainda, convence os outros de que a ilusão é realidade. Raramente vem sozinho. Quando assume o comando, alia-se aos outros dois e forma aquilo que o Evangelho chamou de Legião: ilusões sustentando ilusões, até que todas se precipitam juntas no abismo.
Quem deseja o céu trava a maior de todas as batalhas: aquela que acontece dentro de si.
Por isso, os pecados, diferentemente dos crimes, possuem tribunais invisíveis. São julgados na consciência, e poucas condenações são tão severas quanto aquelas proferidas pela própria alma.
O céu talvez esteja menos distante do que imaginamos.
Basta começar essa luta.
Talvez alguém que esteja lendo estas linhas o encontre antes mesmo que o sol se ponha.