O Tribunal do Júri. (Marcos Pires)

Marcos Pires

O Tribunal do Júri.

 

Vou completar 40 anos de advocacia e nunca participei de um Júri. Sequer assisti a qualquer julgamento de uma ação penal. Respeito profundamente os colegas que se dedicam ao ramo, mas minha praia sempre foi outra. O que não significa deixar de colecionar incríveis histórias sobre o tema.

Já contei aqui algumas das muitas façanhas do meu amigo Boris Trindade, príncipe dos Júris. Lembram daquela que ele foi contratado para defender um médico milionário no interior da Bahia que assassinara um desafeto em plena praça pública no dia da festa da padroeira?

Não?

Pois deu-se que Boris estava com o incrível escore de 40 júris realizados e 40 absolvições. Claro que não queria perder o handcap. Daí colocou todas as dificuldades para aceitar a causa e só foi convencido porque o acusado pagou quinhentos mil dólares à vista e prometeu outro tanto se fosse considerado inocente. Boris trabalhou com afinco e sua primeira testemunha foi a dona do cabaré, que afirmou ter visto o médico durante a noite em seu lupanar (gostaram?). A segunda testemunha foi a rapariga mais conhecida da cidade, que não somente confirmou que o acusado passara toda a noite em sua cama como ainda descreveu um sinal peculiar que ele tinha no glúteo esquerdo. Levando em conta que o médico era queridíssimo na cidade não surpreendeu sua absolvição por sete a zero. Ao final o inocente chamou Boris de lado, deu-lhe os outros quinhentos mil dólares e perguntou se ele queria ganhar outro milhão. Incrédulo, meu amigo perguntou se ele havia assassinado mais alguém, ao que o médico sussurrou: “- Nada disso, é que na última fila está sentada a minha esposa, aquela de vestido preto. Vá lá e convença a bichinha de que essa história de cabaré é mentira sua”.

Digo isso porque lembrei de um antigo chefe político paraibano que mandava em sua pequena cidade. Um belo dia houve um homicídio e a família da vítima pediu a ele que ajudasse com o Júri, o que ele fez conseguindo os sete a zero condenatórios. Acontece que toda a família do assassino também votava no tal político, e sabedores de sua atuação, foram reclamar dizendo que a partir de então ele não contava mais com os quase 60 votos deles.

O político, cujo nome começava com D., não podia ter aquele prejuízo eleitoral, e achou a solução. “- Olha aqui seu fulano e dona fulana, desmanchar o resultado eu não posso mais, porém vamos fazer uma coisa; vocês escolham alguém para matar que eu garanto a absolvição pelo Júri também”.

Dizem que deu certo.

 

Att,

Pires Bezerra Advocacia