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O terceiro não! ( Thomas Bruno Oliveira )

 

UMA DAS COISAS mais desagradáveis pelas quais já passei foi assalto. Dá um aperto no coração, uma mistura de angústia e medo. E se tiver armado? E se achar que estou reagindo? O que poderá ocorrer? E temo, inclusive, por minha integridade física, por minha vida.

 

Não foram muitos em que fui vítima, também não presenciei tantos assim. Mas atualmente despejam em nossos noticiários uma quantidade cada vez maior de roubo, assalto e furto, potencializado em vídeos que nos enviam diariamente em redes sociais. Tudo isso só agrava o medo e também a revolta contra esses gatunos e que não nos permitem desfrutar de nossos bens, quer seja um celular, um relógio ou o velho trancelim. Falando em trancelim, acaba de vir em minha mente um episódio que ocorreu no largo do Mercado Modelo, em Salvador. Íamos ao elevador Lacerda para ter acesso ao Pelourinho, poucos passos adiante, ouço um grito. Meu tio Nando, que estava imediatamente atrás, foi atacado por dois adolescentes que puxaram violentamente o fino cordão de ouro (eles parecem conhecer muito bem!). Nem que quisesse reagir conseguiria, perante a rapidez e surpresa da ação. Dói, dói no coração.

 

A primeira vez que fui vítima, foi em uma quarta-feira por volta das seis e meia da manhã. Estava em uma parada de ônibus para ir à nova escola, esta no centro da cidade. Procurava me acostumar com a nova rotina depois de muitos anos ter estudado no bairro e ir caminhando ou de bicicleta. No dia anterior, havia ido ao Atacadão das Joias, uma loja que existia aqui em Campina e que vendia joias e relógios. Comprei um Technos com duplo visor, o analógico e um digital na porção inferior. Detalhes dourados que combinavam com uma pulseira em couro marrom com uma proteção embaixo da máquina, o nome da marca e o ‘T’ logo acima me agradou demais, meu T de Thomas estava ali. Minhas economias davam para bancar, custou R$45 divididos em três vezes. Hoje deveria ser uns trezentos reais. Na parada defronte à Casa Cide, esperava eu o 202 Transversal (aqui os nomes não fazem muito sentido, o que vale mesmo é o número da linha, diferente de Recife, por exemplo, que cansei de ir com um primo ao shopping pegando o ‘Totó-Boa Viagem’). Escorado no concreto do abrigo (feito pela saudosa Premol), senti um puxão no braço direito. – Não se mexa! Um cidadão mais alto e forte, cabelos encaracolados com cicatrizes no braço e umas poucas tatuagens esverdeadas. Ele desataca a fivela da pulseira violentamente, me manda ficar quieto e segue como se nada tivesse ocorrido. Momento em que o ônibus chega e no alto de meus catorze anos, contenho um choro pela perda e experiência nunca sentida. Meus pais só souberam no fim da aula e perguntaram o porquê de não ter voltado para casa. Nem eu sei direito.

 

Padaria à direita e a parada do 660 à esquerda – google

Meu tio Joãozinho, que acabara de chegar de Recife, compadecido, me deu um relógio Casio com calculadora, agenda e tudo mais. A rapaziada da época amava os Casio. Pois bem, no outro dia, fui para uma parada de ônibus em uma rua oposta para, dessa vez, pegar o 660. Defronte a uma padaria, lugar mais movimentado. Me sento no abrigo na companhia de meu caderno e quem senta ao meu lado? O mesmo sujeito que me roubou no dia anterior. Desta vez, ele carregava um pacote onde parecia conter uma arma. Foi olhando para meu relógio, não tive qualquer ação de correr, gritar. Olhei em seus olhos e travamos esse diálogo: ­– E esse relógio? – É meu! Respondi. – Eu vou levar. – Olhei bem e disse: – Rapaz, tu não lembra de mim não? (para sua cara de espanto) Tu passa por mim direto lá embaixo, onde moro. Até tu já levou um relógio meu e me prometeu que traria outro, lembra não? – Acho que tô lembrado. Mas eu preciso desse aí e pegou no meu braço. Puxei e respondi: – Rapaz, leve não… Repara mesmo, eu tentando convencer o ladrão a não me roubar. Foi quando agiu de maneira mais incisiva e mostrou o cabo de um punhal em sua cintura. Retirou o relógio com a mesma bruteza e desceu em direção ao cemitério. Me levantei como se nada tivesse acontecido e fui para casa.

 

Mas o que houve? Perguntou minha mãe. Foi quando todos souberam do ocorrido. Pela segunda vez e no dia seguinte o mesmo cara havia me roubado. Meu tio Joãozinho pôs seu chapéu, me levou consigo e fizemos uma “ronda” no bairro e nada do meliante. Meses depois, voltando para casa, ao fazer a curva de frente ao antigo Matadouro, vejo a pessoa sentada em um degrau e nada digo a meu pai temendo qualquer coisa. Era ele.

 

Essa semana, precisei ir à Recebedoria de Rendas. Metros adiante, descendo a calçada da Av. Floriano Peixoto, vejo um cara descalço, maltrapilho e com uma garrafa plástica na boca com o que parecia estar cheirando cola. Com marcas do tempo estampadas no rosto, enxerguei aquele que me roubou dois relógios há mais de vinte anos. Acelerei o passo, passei pela porta de vidro, o vi passar. Com a mão segurando o relógio balbuciei: Nem venha, o terceiro não!