Nós, os meninos, éramos todos vaqueiros — sonhos de sermos Renê.
O primo Renê, que o meu irmão Oscar chamava de Dedê, foi quem ficou no Riachão para nos preservar.
Ele é também a versão consentida daquele irmão da parábola do evangelho. Ele permaneceu para que a volta dos demais seja não apenas aguardada por festas, mas garantida e sem mágoas recíprocas. Um álbum que se espera folheado.
Ele chegou aos 80.
Nunca o vi diferente, sempre que o vejo.
Ele morou lá em casa, aos 10 anos — logo que mainha chegou em Jatobá — mas, como o pulmão e coração ficaram no Riachão, ele não conseguia respirar. Voltou depois de apenas dois meses. Nem sei se voltou correndo pela estrada, como outros primos fizeram o trajeto, e eu fiquei me devendo essa, digamos, romaria.
É o nosso vaqueiro.
Elomar Figueira Mello (que, curiosamente, carrega um sobrenome parecido com o de Renê) tem uma música que conta a história de um vaqueiro. Vaqueiro e boi mandingueiro correm nas matas e alpendres do sertão, entre caatingas, lajedos, cafés e conversas.
Eu mesmo guardo os meus sonhos em cavalos de pau alados, para imitar Dedê Inácio, Chico Antônio, Chico Bala, Tarso Braz e João Vaqueiro, do meu Jatobá. Quando pouco, faço cavalgadas poéticas em Pégasos.
Dedê era uma espécie de querer ser do meu irmão Oscar, que levou aos prados celestiais o sonho de ser só vaqueiro no Riachão.
Tem muitas histórias.
Socorro-me dos irmãos quando quero saber mais detalhes dele.
Certa feita, um touro inventou de duvidar da capacidade do Galego, e o Galego mostrou que mandava: trouxe o bicho à unha. Sim! À unha, porque apeou-se do cavalo, desamarrou e derrubou o bicho no terreiro da casa.
Em outra, ele saiu na capoeira para pegar um boi e não conseguiu. Para piorar, o cavalo (que pertencia a outro vaqueiro afamado na família: Titenor) chegou mancando da pata dianteira.
Ele parecia uma criança em ponto de choro. Mal dormiu. No dia seguinte, pegou o cavalo Pombo Roxo e se prometeu: ou desaparecemos os três no mundo dos sertões sem fins e medidas ou voltaremos juntos apregados.
Chegaram no Riachão num cair de tarde.
Ele e Pombo Roxo, seu cavalo de alma e corpo, lembravam a imagem dos centauros: um conjunto.
Também guardou a fama de homem de força.
Numa bodega que administrava no lugar, ele costumava pegar sacos de cereais em cada braço e carregá-los como se estivesse levando livros.
É um homem de fala mansa. Mais ouvidos que palavras. Também mais olhos e ação.
É o primeiro neto de Sá Mariinha, em cuja casa dormia e, adolescente, guardava.
Quando eu quero saber de lá, vou à memória dele: o decano; o mais velho remanescente de nosso sangue — do sangue dos Cabrais e Ararunas, entre o Abrão e aVermelhona; do sangue de Mariinha e Zezé; ele, do ramode Rafael e Rozalva.
Se eu tivesse que dizer mais de Renê, eu diria que ele é o Riachão em corpo, alma — e silêncio.
Porque Renê não é só um homem desses que passam pela terra deixando rastro de poeira e esquecimento. Não. Renê é permanência. É como se o Riachão tivesse escolhido um corpo para continuar existindo — e escolheu o dele. No jeito quieto de falar, na vista comprida que mede o tempo das cercas e das chuvas, na lembrança guardada de cada nome e de cada vereda. Assim ele segue, sem alarde, como seguem os rios por baixo das pedras. E quem se aproxima dele escuta — mesmo que ele nada diga — o rumor antigo do sertão, como se o mundo, por um instante, voltasse a caber inteiro dentro da memória de um homem.
Precisamos vivê-lo além dos oitenta.
Porque homem como Renê não é só um homem.
É um pedaço do Riachão andando.
Enquanto ele respira,
o Riachão tem voz.
Enquanto ele lembra,
o Riachão não morre.
E quando ele se cala —
feito vaqueiro que escuta o mato —
a gente entende
que o sertão inteiro
está guardado
dentro daquele “apalavro”.