Acredito que a sensação de que o amor não mais nos pertence seja a manifestação maior do que ele existe, ou que ele subsiste, sendo assim, que ele insiste. Já encontrei isso em amigos e amigas, que se separam e, sem contar as vezes, reataram, em todos os sentidos, as relações. Ou simplesmente, voltaram a viver juntos de novo. A prudência deixa a temer que até a ameaça da separação provoca um desgaste irrecuperável naqueles que decidiram, firmemente, viver juntos, sempre se temendo que ocorra uma viagem de partida sem retorno. Mas, não, vistos de novo de mãos dadas, abraçados, ou risonhos ainda na fila do circo, exclama-se o espanto: “De novo!”. São casos diferentes do de “Romeu e Julieta”. E hoje, cada vez mais, isso se multiplica; isto é, não a espécie, mas as separações e as reconciliações. O mel se junta mais ao mel do que a outras coisas…
Há os que não se casam; os que vivem juntos, sem se casar, o que o missionário Frei Damião de Bozzano, fazendo coro com Padre Ibiapina, em Pilar ou em Bananeiras, ameaçavam com castigos após a morte, mas os prazeres de quando estavam juntos faziam daquela situação um paraíso, longe da ideia de qualquer inferno. Há os que só se casam quando casam oficialmente, “com véu e grinalda” e com registro no cartório. E desses, alguns jamais pensaram em se separar, muitos morreram assim, como se no amor não coubesse história de divórcio, desquite, acordo de dois quartos, duas camas ou coisa parecida. Com esses nem ciúme existe, tampouco une ou desune, e que jamais ouviram se proverbiar que ciúme destrói casamento ou o que o ciúme corrói o amor. Sabe-se que o ciúme nasce em circunstância do amor, mas morre com ele.
Os animais se juntam para procriar, acasalam-se, mas não casam, mesmo se o casal de pombos, que permanecem por muito tempo juntos depois de copularem, sejam considerados como se fossem “casados”. Refutando a ironia de que “quem casa não tem juízo”, tal comportamento só se realiza entre os racionais e que possuem sentimento. Contudo, os brutos, se amam, também se casam, com amor tudo se faz… No entanto, ganhamos mais em fazer o bem como os nossos pais fizeram do que fazendo os erros que nos disseram para fazer.
O amor não pode ser maior do que o existente dentro daqueles que se amam, o que acontece quando surge a paixão, tentando substituí-lo, como se fosse a paixão querendo se sobrepor à razão e ao equilíbrio dos sentimentos. A paixão estonteia, basta um olhar, um toque dos dedos, que isso levanta a alma e deixa a cabeça tonta e feliz. O amor nunca fica totalmente resolvido, é um vivo processo, cujo fim não se alcança. Porém, entre casados, de cada um tudo depende, seja entre os gestos trágicos seja nos maravilhosamente românticos, quando tais gestos são interativamente sinceros, cuja sinceridade se determina fundamento da indispensável e necessária amizade.
O medo deve ser que a convivência se enferruje pela rotina, o que se limpa pela continuidade do que é bom e do sabor das novidades. Talvez seja assim o amor dos casados ou quem sabe uma bem-aventurada distração. No palco, abre-se a cortina, os que se amam aparecem e trocam carícias. Os casamentos não se acabam, enquanto forem preservados por carinhos…