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O CARNAVALESCO JOÃO DE MANEZIM – Rui Leitão

 

Este ano passei o Carnaval em Cajazeiras, algo que não fazia a bastante tempo. Nos blocos, festas e na tradicional praça do frevo uma marchinha ecoava: ““Ei, olhe pra mim/Eu sou João de Manezim/Não faça isso, eu não mereço/Você vai cair no remelexo”. Essa é a mais conhecida composição de João de Manezim. Seu nome de batismo era João Rodrigues. Nasceu em 1941, morador da zona sul da cidade, tornou-se uma figura lendária, por seu comportamento pitoresco e peculiar. Carnavalesco, fundou sua própria escola de samba e compunha as marchinhas que a população ainda canta. Com seu faro para gente diferenciada, a produtora cultural Iracles Pires, não só oferecia as condições para os desfiles, como cuidava da maquiagem dos figurantes da escola. Os versos de suas músicas caíam no gosto popular, pela forma como abordava os mais diversos temas, com pitadas de humor e irreverência.

Marcou presença forte nos carnavais da cidade do Padre Rolim. Era um autêntico folião. As ruas de sua terra natal foram o palco em que conseguiu dar visibilidade ao seu modo exótico de viver. Planejava, inclusive, espetáculos circenses, onde chegou a pregar peças anunciando o que, efetivamente, não iria acontecer. Um dos episódios mais lembrados foi quando fez propaganda pelas ruas de que à noite iria apresentar a “mulher que vira peixe”. A curiosidade do povo pela inusitada performance artística divulgada, chamou a atenção de muita gente. Na hora da apresentação, ele, vestido de mulher e com uma peruca loira, trazia na mão uma frigideira na qual conduzia um peixe virando-o de um lado para outro. Nem é preciso dizer qual foi a reação do público. Antes que fosse alvo da fúria dos que se viram enganados, correu e fugiu, passando algum tempo sem aparecer nos locais que costumava frequentar.

Apaixonado pelo Atlético de Cajazeiras, organizava, com sua batucada, a animação da torcida nas partidas realizadas no estádio Perpetão. A originalidade das suas ações fizeram com que se tornasse um figura muito popular, o que garantiu sua eleição para a Câmara de Vereadores, na década de 80. Quando de sua morte, em junho de 2013, foi velado naquela casa legislativa, tendo sido homenageado pelos parlamentares com uma sessão especial. O cortejo fúnebre foi acompanhado pela batucada de sua escola de samba e uma multidão de admiradores.

Por ocasião das comemorações do cinquentenário de fundação de Brasília, o então governador do Distrito Federal, Roberto Arruda, colocou na programação festiva um show com Paul Mccartney, desfazendo essa agenda após o escândalo que estourou envolvendo-o. O cajazeirense Ubiratan di Assis, que na época morava na capital federal, em tom de brincadeira, noticiou pelo Orkut que “na falta de Paul Mccartney, quem viria se apresentar seria o compositor carnavalesco João de Manezim”. A informação repercutiu de tal forma que seus conterrâneos residentes em Brasília, decidiram levar a sério o gracejo e bancaram a viagem, adquirindo as passagens aéreas, mala, terno, gravata e um par de sapatos. João de Manezim foi recepcionado por um barulhento grupo de cajazeirenses, que entoava algumas músicas compostas por ele, ao som de uma charanga. Claro que isso despertou a curiosidade das pessoas que estavam no aeroporto, inclusive do poeta Thiago de Melo que consultou Ubiratam: “de quem se tratava essa figura tão festivamente recebida?”. Ficou, então, sabendo que era um personagem folclórico do sertão paraibano.

Durante os quatro dias que esteve em Brasília, além de cumprir uma agenda de turista, o compositor paraibano concedeu entrevista na Rádio Nacional e, diariamente, falava para o programa Boca Quente da Difusora Rádio Cajazeiras, dando conta da sua estadia no Planalto. Foi exatamente nesse período que foi fundada a Associação dos Cajazeirenses e Cajazeirados Residentes em Brasília, durante um churrasco de confraternização na granja de Ubiratan di Assis.

João de Manezim, em vida, traduziu a aura multicultural de Cajazeiras. Sua história deixou marcas indeléveis na paisagem urbana da cidade onde nasceu. Sua memória é contada em verso e prosa pelo povo sertanejo.

Rui Leitão