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Blog do Vavá da Luz

     Mortos sem suas caras nos seus velórios (Damião Ramos Cavalcanti)

 

          No filme Farenheit 451, hoje quase realidade, num regime totalitário, os livros são proibidos e todos ou cada um é apenas um número dentro da sociedade controlável, enfim a identificação numérica é tudo, a cada indivíduo vale a existência e a coexistência naquela sociedade. Queira ou não queira, ninguém escapa dessa identificação, sabe-se onde todos  estão, o que fazem e se possuem livro em estante ou debaixo da cama, sob comando da sempre acordada Inteligência Artificial e pela não artificial, polícia secreta do Estado… O controle se explica não para organizar, mas para dominar os indivíduos em massa para subsistência do autoritarismo. O enredo dessa película é de que cada cidadã ou cidadão deve ser seguido passo a passo; escapa quem for viver em comunidades alternativas, nas florestas, decorando textos proibidos, para suas vozes substituírem a leitura dos livros já queimados pelos bombeiros.  
          Os tais números se supervalorizam mais do que os nossos atuais CPF, sobre o que  Osvaldo da Sauna, quando morre algum conhecido, assim anuncia: – Hoje se foi mais um CPF… Contudo, nas metrópoles, necrotérios do IML estão cheios de corpos ignorados, sem identificação, sem amigos e parentes, que os procurem, vitimados no meio das ruas das grandes cidades, à espera de que faculdades de medicina os recolham ao formol, como objetos para seus Laboratórios de Anatomia.           
          Tudo começa nos berçários, mal a criança sai do ventre, logo recebe uma pulseira, em que se escrevem números e letras, cuja identificação a parturiente verifica ciosamente, desconfiando de um eventual “errar é humano”. Mas, acontece. Crianças que saem nos braços errados da mãe de um outro, entregues ao desdém do irresponsável controle, dizendo tudo ter sido como sempre se faz. Ocorrem casos em que só são desfeitos, quando a criança com enganada identificação já anda e fala tudo, menos o nome da verdadeira mãe, ou assim até já de barba e bigode. São controles que tecnicamente não prosperam…

          Mas, dias atrás, muito comentado pela mídia televisiva, por causa de erro na identificação, dois mortos foram levados ao velório com suas fisionomias trocadas, isto é, trocaram os nomes de José Pereira e de Waldeci Batista. Isso ocorreu no município de Santa Rita, no seu excelente Hospital, vizinho à capital paraibana, aonde viajou a filha de Pereira, Maria José, e onde viu o pai morto; aguardou que o vestissem para ser levado ao esperado velório, que não se realizou…
         Já a filha de Waldeci confessou que costuma não ir a velório, viu o pai morto e, “sem abrir o caixão”, enterrou-o em João Pessoa. Mas, ao contrário, Maria José Pereira, acompanhada pelos seus familiares, dirigiu-se, consternada, ao velório de José Pereira, e lá chegando, constatou o inacreditável: aquele a ser velado não era o seu pai, mesmo com o nome do Sr. Pereira. Desfeito o velório, Maria José procurou a filha mais velha de Waldeci, que lhe informou já ter realizado o enterro.
          Resta reaver o corpo de José Pereira, cuja identidade sua filha e família enlutadas reconhecerão e poderão dedicar-lhe orações e despedidas cristãs no, por acontecer, tão difícil sepultamento. Para isso, a filha requerente conseguiu a exumação junto à Justiça e talvez reparação do dano presumido, in re ipsa. Ainda resta esperar que a administração responsável trate esses corpos mortos com o respeito de quando eram vivos, e nunca mais se cometa tal má identificação.    

DESTAQUE:  Dias atrás, dois mortos foram levados ao velório com suas fisionomias trocadas         
         

 

Damião Ramos Cavalcanti

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