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Blog do Vavá da Luz

     Melhor sonhar do que falar sobre sonho (Damião Ramos Cavalcanti)

               

 

          Medo das coisas, dos fatos, dos bichos e das pessoas, especialmente se essas são muito ruins, talvez sejam fatores de alguns dos nossos sonhos. Milhares de conversações, na internet, à noite, sobre assuntos triviais ou não, quando se acham sem assunto, param por minutos, à espera que o outro recomece. É quando um dos dois toma a iniciativa de se despedir: “Boa noite”, e já com certo afago: “Bons sonhos”. Se são sonhos e bons, não precisam ser ótimos… Assim, em falar em sonhar já se manifesta alguma intimidade, mesmo quando não se vai, como José Nêumanne, “direto ao assunto”, o que culminaria em “bons e prazerosos sonhos”, quando acordar é o que não se quer, e que, no outro dia, não se revelam os segredos; reclama-se que o sonho foi muito curto, mesmo contendo uma infinidade de pessoas, fatos, coisas e circunstâncias. O sonho desnuda os que dormem, e descobre-os do mais longo cobertor…
         O sonho parece ser uma estranha perfeição ou, quem sabe, imperfeição. Para qualificá-los, precisa-se de muitas comparações, e isso se torna difícil, por serem complexos, quase como conceitos abstratos, amorfos, sujeitos às mais curiosas interpretações, mesmo se tudo seja muito claro, num rápido curta-metragem, preto e branco ou colorido. Embora sirva para expressar um ideal difícil de se atingir, quase utópico, como o de Martin Luther King: “I have a dream” (Eu tenho um sonho), que seria o fim das discriminações e o respeito aos direitos humanos, à religião, à raça, aos valores culturais das etnias, à cidadania e à ideologia de cada um. A intolerância, nos USA, matou esse líder negro; como assassinaram Marielle Franco, no Rio, por denunciar a grilagem de terrenos, que serviriam à população mais pobre, nas cercanias do Rio de Janeiro. Esses, nesse sentido, são sonhos perigosos… Como a coerência de valores e princípios de Thomas Morus, patrono dos advogados, autor da obra Utopia, decapitado por sonhar, pelo rei Henrique VIII, da Inglaterra.
         Sonhar é também desejar coisas possíveis, difíceis, mas possíveis. Contudo, às impossíveis, ninguém é obrigado a fazer, como pedia o confrade e amigo José Jackson Carneiro de Carvalho para eu repeti-la: Ad impossibilia nemo tenetur. Tais sonhos, mesmo chamados de utopias, desvendam-se como projetos futuristas, que talvez hipoteticamente frutos da evolução da humanidade. Rejeito a pessimista ideia de que os humanos involuem. Sonho que a humanidade marcha no bom sentido, em cujo caminho se encontrarão valores, até antagônicos, na ética, na religião, e sobretudo na política, juntando modi operandi de economias, sem apelidá-las de teias ou ateias, de socialista, capitalista, vermelha, azul ou incolor. Forma, gerada pela evolução, ela própria, demonstrando-se satisfatório BEM COMUM, impor-se-á… O que, já fruto da evolução, democraticamente, o bom senso coletivo aprovará. O antropólogo Teillard de Chardin, abordando sua teoria da evolução, que culmina na neogênesis, levou-me a pensar assim: O mundo como algo não estático, mas como uma massa em vias de transformação no bom sentido, marchando para o divino e para servir à criação. 
         Não tenho medo de sonhar assim. Conheço quem sempre temeu o mar como um poderosíssimo e avassalador, e sonhou muita água, de repente, transformando-se num grandíssimo tsunami, capaz de cobrir todas as mais altas montanhas. Ele não suportava mirar, na praia, o horizonte porque não enxergava a finitude do mar. Imaginava, lá das folhas bíblicas, o dilúvio universal. Morreu, num sonho, afogado, como passageiro do Titanic…

 

Damião Ramos Cavalcanti

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