Lidando com a morte (Marcos Pires)

Quando menino eu conheci uma amiga de minha mãe, daquelas solteironas do Miramar, que se dizia muito nervosa porque ficara no caritó. No bairro ninguém permitia que ela fosse aos velórios e enterros porque ao invés de chorar danava-se a dar risadas quando se aproximava do defunto.

Essas reações à morte são incríveis.

Mesmo as reações à ameaça de morte já são perigosas. O cidadão acabara de receber um péssimo diagnostico do médico. Encontrou um amigo e, muito deprimido, esperando uma força, confessou: “- Mas meu amigo, não lhe conto. Sai agorinha do médico e ele me deu seis meses de vida. O que você acha? ”. O amigo arregalou os olhos, balançou com força o seu ombro e disse: “- Pois corra, aproveite que seis meses para quem está morrendo passam em menos de uma semana”.

Já outro foi diagnosticado com um câncer e recebeu a visita do irmão ainda no hospital. “- Mano velho, eu que nem câncer tenho já estou lascado, avalie você que não deve ter nem três meses de vida”.

Seu Durval era meio assim…abilolado, e foi consultar um médico muito bom mas rude, beirando o estupido. Ao ser diagnosticado com pneumonia, quis duvidar. “- Mas Doutor, será que é mesmo pneumonia? Olha que eu tinha um amigo que foi diagnosticado com pneumonia mas morreu de outra doença”. O médico já aborrecido pela dúvida posta em seu diagnóstico, rebateu: “- Pois aqui é garantido, seu Durval. O senhor vai morrer mesmo de pneumonia, viu? Mas era só o que faltava…”.

Isso de morrer vai aos extremos do absurdo. Nerivan é testemunha de um estranhíssimo diálogo entre dois pinguços que frequentam o bar “Lavagem do rato”, no distrito mecânico. Um deles disse ao outro que o amigo comum Antônio havia morrido na porta do bar. O outro perguntou se ao morrer Antônio estava chegando ou saindo do bar. Quando foi informado que Antônio morreu quando entrava no bar, desabafou: “- Que azar, hem?”.

A mistura de bebinhos e mortos nunca deu certo. Zenildo conta que na cidade dele um bêbado foi a um velório e ao saber que fora suicídio, perguntou alto e bom som qual o veneno usado. Constrangido e querendo acabar com aquela cena macabra, um parente disse baixinho que o suicida tomara o veneno folidol. O bêbado não se conteve: “- Mas que imbecil. Folidol até que é bom, mas não há nada que se compare ao bom e velho chumbinho”.

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