Acompanhado por Zé Lins, com as mãos cheias de cajás, apanhados na frente da Casa Grande do Engenho Corredor, íamos em direção à margem do Rio Paraíba, onde estava descoberta a grande pedra, contra a qual as lavadeiras batiam as roupas ensaboadas para enxaguá-las. À beira do rio, ninguém, apenas elas e as coisas boas que nos estimulavam este sonho. Vi Zé Lins, descalço, roupas curtas e brancas, gostando daqueles ares e paisagem, que inspiraram a literatura dos seus romances. Para ele, voltar a Pilar era um oásis, fugindo, por algum tempo, das areias nos olhos, do deserto de sossego, que sofria na turbulenta e já poluída cidade do Rio de Janeiro. Mas, era a metrópole que lhe proporcionava conviver com o povo urbano; com artistas e intelectuais; com a imprensa; com o mundo de onde poderia sair a maioria dos seus leitores; com a editora José Olympio, enfim, com a fama. E, sobretudo, com a alegria e a paixão, desses tempos: o Flamengo, do qual se tornou ferrenho torcedor, sócio, dirigente, e, afeiçoado ao futebol, influenciador dessa afeição junto aos amigos intelectuais, como Mário Rodrigues Filho e Gilberto Freyre. Também influenciou a intelectualidade brasileira a gostar de futebol, como Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos, Gilberto Amado e Coelho Netto.
O futebol tratado por José Lins era o de preferência o do eixo Rio – São Paulo, ele não chegou a ver a Copa de 1958, mas acompanhou jogo a jogo, pelo rádio, a Copa do Mundo da Itália, em 1938, entusiasmado pela primeira transmissão radiofônica desse torneio mundial, quando se impressionou pelas jogadas daquelas seleções. O Brasil jogou sua primeira participação, em 1930, no Uruguai, e chegou até o sexto lugar, eliminado na primeira fase. Em 1939, sua paixão pelo futebol, em pouco tempo, ele se associou ao Clube de Regatas do Flamengo, aos seus 38 anos de idade. De sócio, logo se tornou dirigente, para como cronista, convidado por Mário Filho, em 1945, escrever no Jornal dos Sports, e sempre se referia ao Flamengo; e a caminho desse clube ou conversando com os torcedores, também abordar assuntos políticos ou críticas à administração pública. Quanto ao Flamengo, não encontrava falha, sempre tendencioso e em defesa do seu time.
No campo, assistia às partidas roendo as unhas; gritava; enrolava-se com a bandeira do clube, que está exposta no Museu José Lins do Rego, no nosso Espaço Cultural ou Funesc, que presidi, durante o governo de José Maranhão. Seu fanatismo pelo futebol incluiu, no seu romance Água-mãe, de 1941, o personagem Joca, jovem que trabalhava como estivador, jogando muito bem nas peladas, e que saiu do interior do Rio de Janeiro, para tentar sorte nos gramados da grande cidade. Seu espírito esportivo entendia do assunto, tinha a visão de que a seleção de futebol, enquanto membro da CBD, animava a nação de brasilidade. Por isso, foi ele, em crônica, que começou a conceituar a torcida flamenguista como “nação”.
Se José Lins do Rego, também o bom cronista esportivo, estivesse a ver essa Copa de 2026, certamente diria que a maior causa da nossa desclassificação foi a série de desfalques, ocorrida nos convocados; quantitativamente quase um time, qualitativamente quase uma seleção desfalcada. Nenhuma boa seleção suportaria, nessa copa, um rombo assim nos seus quadros. Pois, na brasileira, contundiu-se quase uma seleção, e ainda sem tempo para treinar as improvisadas substituições… Bem melhor será em 2030.
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