Osmar de Aquino
Saía da academia, no MAG, ainda com o corpo quente e o espírito meio distraído, quando entrei na Livraria do Luiz. Lá estavam meu amigo Evandro Nóbrega, meu colega de turma Ênio Matos e seu pai, Eilzo Matos.
Convidado, sentei-me à mesa para uma conversa breve — dessas que nunca são.
Falamos de Esmeraldo Braga, nosso romancista conterrâneo, hoje recolhido no cerrado goiano, mas nunca ausente das lides culturais. Como mantenho contato com Braguinha sempre que ele se dispõe, tratei de atualizar o grupo. Ênio falava com o encanto que lhe é próprio sobre “Danação em Terra Quente”, a obra-mãe, e se derramava em elogios à forma tão particular do autor. Eilzo recordava o tempo em que o trouxera à capital, atento às suas qualidades intelectuais. Evandro ficou de marcar um encontro virtual — desses que hoje substituem as mesas.
Voltei-me a Eilzo e lhe disse algo que já repetira a Ênio desde os tempos de faculdade. Certa vez, recitei-lhe um poema de Catulo da Paixão Cearense dedicado a Beniamino Gigli, entre tantos que eu decorara ainda pré-adolescente. Lembrei apenas fragmentos do poema, que é um passeio pelos nomes da música erudita, mas o verso final, esse nunca me abandonou:
“Mas Deus já não regia, Deus sonhava.”
Disse-lhe também de uma cena antiga, que guardo como quem guarda uma fotografia sem papel. Ele, deputado, convidado por Zé Lacerda, então 1º Secretário da Assembleia, fez uma ligação para alguém na América e abriu o contato com uma frase que, pela naturalidade, nunca mais me saiu da memória:
— I want to talk to Jimmy Plate.
Ele riu. Como eu ainda lembrava daquilo, tantos anos depois? Não soube explicar. Talvez porque certas formas — quando são simples — ficam.
Tudo indicava que o encontro deles, ao qual cheguei como aluvião, trazido pelo suor da academia, tratava da biografia de Eilzo, que Evandro vinha escrevendo. Curioso, ao seu modo, Evandro cobrou-me o poema — que creio lhe ter passado.
Recentemente, li uma nota de Tião Lucena informando que, antes mesmo da missa de sétimo dia de Eilzo, já havia quem se anunciasse à rinha pela vaga que ele deixara na academia.
É deselegante — e mais que isso, antiacadêmico —, não fosse o instante atual tão distópico e propício.
A forma de acesso a esses aerópagos tornou-se tão descuidada que as escolhas deveriam partir da própria academia. A iniciativa poderia nascer de um grupo de membros — digamos, um terço — com as devidas recomendações. Feitas as indicações, a instituição consultaria os indicados quanto à anuência. Havendo mais de um nome aceito, abrir-se-ia a disputa; sendo único, proceder-se-ia à avaliação. Simples assim.
Perder-se-iam, talvez, partes do anedotário — essas conversas que se contam sozinhas, sem autor nem testemunha, mas que são a própria alma das academias. Na história da academia francesa, abundam.
Mas a escolha de ofício evitaria arrivistas, reconectaria os acadêmicos com o mundo real e ainda sinalizaria ao público — e ao mercado — novos nomes e modelos estéticos. Essa é, aliás, a função dessas agremiações.
A bem da verdade, a chamada imortalidade acadêmica nasce daí: ninguém deve pedir para entrar — muito menos para sair — desses sodalícios. Por isso, estar lá tem esse ar de permanência.
Certa vez, ouvi Marcos Vilaça dizer, em conversa com o poeta Ronaldo Cunha Lima, que a imortalidade é dada pela ausência de um lugar onde o acadêmico possa cair morto. Ao ouvir a brincadeira, lembrei uma frase atribuída a Osmar de Aquino:
— Eu raramente morro.
Ele guardou e levou ao chá da semana.
O anedotário das academias é vasto.
Jorge Luis Borges, vítima preferida dos “wokes” de Estocolmo, ironizava com a negativa recorrente do prêmio. Disse que não confiaria numa confraria que o tivesse como membro. Depois, que negar-lhe o prêmio era uma velha tradição nórdica. Por fim, vendo seus mais conspícuos êmulos laureados à sombra de sua exclusão, admitiu que morreria feliz se fosse premiado.
Há também um episódio — talvez mais lenda que fato, e toda lenda é um fato que decidiu vestir disfarce — sobre a eleição de Jules Massenet à academia francesa.
As grandes academias são, em larga medida, sombras das iluminações a que negaram acesso — ou láurea. Ipso facto, a imortalidade acadêmica é, muitas vezes, a sutileza com que a ilusão confere sobrevivência à falta de talento ou à impopularidade — ou a ambas.
Diz melhor Paul Valéry:
“A Academia é composta pelo mais habilidoso dos homens não talentosos e pelo mais ingênuo dos homens talentosos.”
E Voltaire não suavizou:
“As academias são sociedades de elogios recíprocos.”
Essa escola de elogios mútuos também foi percebida por Antero de Quental ao criticar os prefácios generosos de Castilho na época da Questão Coimbrã.
Repito: as academias — como todos os grupos estéticos organizados — projetam-se mais pelas recusas do que pelos integrantes. Suas galerias vivem, em boa parte, da exposição de ausências. Há um certo deleite, quase confessional, quando um grupo pode afirmar que um grande nome não o integra.
Conta-se que Jules Massenet teria vencido Camille Saint-Saëns numa dessas disputas. A rivalidade entre ambos os alimentava — eram êmulos necessários.
Perguntaram certa vez a Massenet sobre a obra do rival:
— É um artista genial.
O interlocutor, buscando faísca nas labaredas, insistiu:
— Ele diz que o senhor não tem talento algum.
Massenet encerrou:
— Nós dois temos o costume de não dizer o que pensamos.
As razões que consagraram Getúlio Vargas são, em grande medida, as mesmas que negaram acesso a Juscelino Kubitschek à Academia Brasileira de Letras, fundada por Machado de Assis.
O padrão repete-se quando se nega a Borges e se laureia Pablo Neruda com o Nobel.
Hoje, não raro, um discurso de ocasião — travestido de posição estética ou política — serve de trampolim para autenticar a ausência de talento sob a chancela acadêmica.
Os acadêmicos são, muitas vezes, cúmplices desse jogo. E o mundo digital resolveu, com um certo apocalipse igualitário, que ou todos são acadêmicos — ou a academia já não existe.
Alexis Piron, embora eleito, não chegou a ser empossado na academia francesa. Irônico até o fim, escreveu para si o epitáfio:
“Nada conseguiu ser na vida; sequer acadêmico.”
O acesso às academias não difere muito das mumunhas dos tribunais.
Um amigo candidatou-se a uma vaga numa corte. Pediu votos a todos. Obteve apenas o mínimo necessário e integrou a lista tríplice — da qual acabou escolhido.
Após a posse, percorreu todos os gabinetes agradecendo. Os que não votaram nele eram os mais festivos e afirmativos. A convivência, porém, tratou de separar o que o sorriso tentava unir.
Anos depois, dois desses vieram pedir votos para parentes acessarem o tribunal. A resposta foi limpa, sem ornamento:
— Não se preocupe, amigo, farei por você exatamente o que você fez por mim.
É que, à época, o voto ainda era secreto.
