O médico é o reflexo de Deus na esperança dos que sofrem.
Lauro Wanderley
Pareciam ingressos recentes de alguma escola de medicina. Lembraram-me, com certa saudade, do meu irmão Oscar, quando, em 1973, passou no vestibular.
Falavam com outros colegas, tão jovens quanto eles — possivelmente advogados — e discutiam as narrativas mais novas do dia.
O último a chegar, com ares de gozador, sentou-se já falando:
— Aqui está igual ao inferno: a cada instante surge uma notícia ruim para apagar a anterior, quebrar a adaptação e o costume e impedir a memória crítica.
Dos acadêmicos de medicina, ouvi, de um:
— As escolas estão perdendo o compromisso original em favor da pressa — e da desleal concorrência com a realidade virtual. Não há mais como negar a internet nem a IA. O instrumental moderno também empurra nessa direção. Mas nunca podemos perder a compreensão de que tratamos vidas.
Outro acrescentou:
— Nos últimos anos, de forma acelerada e sem critérios, foram criadas diversas escolas superiores — não apenas de Medicina, mas de todos os cursos — públicas e privadas, muitas sem docentes qualificados nem estruturas apropriadas. Umas e outras dependem de recursos públicos: as públicas, do orçamento direto da União, dos Estados e dos Municípios; as privadas, de financiamento público. Portanto, quase todas as escolas superiores atuais dependem do dinheiro público e deveriam estar submetidas às mesmas fiscalizações, inclusive quanto à qualidade.
Um terceiro arrematou:
— Os cursos de Medicina e Direito, nas universidades públicas, acabam sendo ocupados majoritariamente por alunos que vieram de colégios secundários privados caríssimos, preparados desde cedo para vencer a alta concorrência. Já os alunos oriundos das escolas públicas, em regra, vão para faculdades particulares, autorizadas e financiadas pelo próprio governo. Quando conseguem ingressar nas universidades públicas, geralmente é em cursos com menor concorrência ou com pouca atratividade no mercado de trabalho. Os pobres ficam com as dívidas.
O aluno de Direito encerrou:
— Esse modelo educacional é a maior transferência de recursos públicos para a iniciativa privada de que se tem notícia. Só faz aumentar a concentração de renda. Quem pode pagar colégios caros ocupa as vagas públicas mais disputadas; quem não pode paga depois, por meio de financiamentos e endividamento.
— O mais razoável seria cobrar mensalidades nas universidades públicas apenas de quem pode pagar (e já vinha pagando escolas secundárias privadas), como fazem quase todos os países do mundo — inclusive a China — e, com esses recursos públicos que hoje irrigam instituições privadas, ampliar vagas com estrutura nas próprias universidades públicas.
— Os que não podem pagar compensariam esse custo com prestação de serviços, como estágios e aprendizagem, sem endividamento vitalício.
— E há mais: o ensino superior consome a maior parte dos recursos da educação pública, deixando a educação básica — que deveria ser a prioridade — permanentemente sacrificada.
E, ao final, sentenciou:
— O Brasil é tão atípico que os maiores negócios estão na agiotagem, nas farmácias — e na saúde —, nas escolas e na ocupação de determinados cargos e mandatos públicos, que deveriam ser encargos.
Eu ouvi e saí matutando.