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Blog do Vavá da Luz

   E as guerras ainda existem? (Damião Ramos Cavalcanti)

                           

          
          Num campo de batalha, havia homens de dois lados, em vários exércitos, um contra o outro. Todos fortemente armados e ambos com potenciais possibilidades de vitória; o confronto poderia ser exterminador, ou poucos soldados sobrariam. E depois da sangrenta batalha, depois de tantos mortos, talvez lamentariam a vitória, pois ninguém se sentiria vitorioso. Mas, antes dos ataques, eis que acontece o inesperado, sucede um cataclismo, um abalo brusco e de grande amplitude que elimina esses exércitos, aniquilando homens e armas. Enfim, ninguém vitorioso, tampouco perdedor, contradizendo o “se queres paz, prepara a guerra”: Despreparou-se a guerra e resultou a paz, embora a paz entre os mortos…  
          Situação bem parecida foi a de uma pequena aldeia de um país ocupado, durante a segunda guerra, cuja população estava sitiada por inúmeros tanques invasores. De repente, escuta-se um bombardeio ensurdecedor que arrasa esses tanques, eliminando o inimigo. Com o silêncio, cresceu a esperança ou a ilusão de que a guerra tinha terminado definitivamente; que aquela aldeia teria vencido sem alguma resistência, favorecida por aqueles aviões anônimos. Assim, são as circunstâncias da guerra, de cuja violência ninguém escapa. E sabemos que ainda continua a haver guerras, nos dias de hoje, promovidas pelos brutos, que não amam…    
          Individualmente, pratica-se também a violência contra a carne e o sangue, desde que haja armas. Por exemplo, lutar até morrer ou sobreviver parecia ser o dilema vivenciado entre os gladiadores, cujos jogos “oficiais” foram repassados das arenas etruscas ao Coliseu romano. Os lutadores não se divertiam como em qualquer jogo; sacrificavam-se para que o sanguinário público vibrasse, apreciando os golpes fatais, que resultariam em infâmia ao morto ou em glória ao vencedor. O perdedor somente reconquistaria sua reputação, após a sobrevivência em várias lutas, e também, ao perder, se fosse perdoado pelo polegar do César voltado para cima. Depois de muito tempo de barbaridade, esses jogos romanos passaram a ser “humanizados”, disputas sem morte ou apenas jogos olímpicos. Assim, se configurava a luta mortal e individual, sem ser no campo da batalha. Quanto à violência, chamá-la de “violência individual é uma qualificação equivocada”, qualquer que seja ela sempre afetará o corpo social. Individualizar a violência? Até os fatos de nascer e de morrer, mesmo considerando num só indivíduo, repercutem no tecido social, como acontece com as células do nosso corpo.
          É um insulto à racionalidade humana invadir o país alheio e provocar guerra nos dias de hoje. De certa maneira, Max Weber nos ajuda a diferenciarmos “as guerras europeias” das “guerras das tribos cafres”; tais conflitos gozam de um relativismo enorme, sob o ponto de vista sociocultural. A experiência histórica, nas sociedades consideradas avançadas, deveria ser  um bom aviso do que seja a guerra… Seria um absurdo desconhecer essa realidade ou não estar consciente do que seja a guerra. Os gregos, amamentados pela Filosofia, não acreditavam na sua própria mitologia. O tempo, na sua historicidade, amadurece as civilizações de modo muito relativo. Nesse sentido, podemos assegurar que os primitivos não chegaram a ter a ideia ou a visão do futuro como a dos jovens ou dos adultos de hoje. Somos nesse aspecto privilegiados. Somente nós, que já experimentamos a história da evolução das ideias, temos essa consciente maior visão do mundo. E por que não perceber que guerras ainda acontecem? A guerra que profana os templos, derruba as casas, escolas e hospitais, mata as famílias, em nome dos que matam e em nome dos que morrem, sem vez para arrependimento.     

 

DESTAQUE: A experiência histórica, nas sociedades consideradas avançadas, deveria ser um bom aviso do que seja a guerra…

Damião Ramos Cavalcanti

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