Pular para o conteúdo

Blog do Vavá da Luz

          Com destino a São Severino dos Ramos (Damião Ramos Cavalcanti)

 

          Ninguém sabia o que fosse. Quando as crianças ignoram aonde vão, preocupam-se apenas com o barulho das novidades, sobretudo quando se trata de viagem. Acordamos de madrugada, e o velho carro Ford, de seu Salvador, já estava à porta da casa, em cujos quartos achavam-se dificilmente os sapatos com auxílio do candeeiro a querosene. Se a novidade não é dita à meninada, ela age pela força daquilo que não é costume. Embora muito cedo da manhã, meu pai apressava: “Vamos, já está tarde, Paudalho é longe”. Viajaríamos a São Severino dos Ramos, perto de Carpina, ainda terras do então Engenho dos Ramos.
          Não íamos propriamente a Paudalho, mas às suas vizinhanças, exatamente ao santuário de São Severino dos Ramos, onde paraibanos, riograndenses, pernambucanos e meus pais pagavam promessa, rezada em Pilar. Esse assunto não nos era dito, apenas chegávamos saber que se tratava de alguma graça alcançada, certamente para o bem da família. Ora, quem já se viu o contrário? Confiava-se que a viagem seria abençoada e cheia de alegria, contudo desconfiava-se do velho carro de praça de “seu” Salvador, também era o único na cidade, que dava conta de todos os destinos, sobretudo para o comércio de Campina Grande, de Recife e para as urgências médicas em João Pessoa, aonde certa vez levou uma tia minha que era diagnosticada pelo meu avô como “doente dos nervos”.

          Para chegar à Igreja Nossa Senhora da Luz, passava-se por uma ponte de tábuas, unidas por duas grossas cordas, atravessando um rio, que molhava os pneus do carro pela metade e balançava a ponte. Via medo nos rostos dos adultos, como se estivessem orando pela finalização da passagem, foi um medo que guardo até os dias de hoje. Feita a travessia, o medo logo voltou ao pensarmos no caminho de volta. Voltei muito depois e revi o rio que se tornara riacho, e a longa ponte amedrontadora, em apenas uma passagem de quase vinte metros… Coisas, casas e calçadas, vistas enormes na infância, encolhem aos olhos adultos. 
          Na Igreja, no pequeno altar à parte, deitava-se o santo homenageado, São Severino, fardado romano, martirizado por ter aderido ao cristianismo, naqueles tempos de perseguição aos cristãos. Propagavam até que se cortada ou furada a imagem sangraria… Como em vários santuários do nordeste, em baixo do altar e numa sala ao lado, acumulavam-se os ex-votos de madeira, papel, de cera, de ferro, de gesso, em forma de pernas, braços, cabeças, casas, retratos, corações, de coisas quebradas, curadas dos males das traições e do ciúme. Atrás da Igreja, túmulos e mais túmulos, parecendo ser o cemitério da cidade, de onde se viam algumas bodegas vendendo comida, cachaça e risadas, onde almoçamos feijão com arroz e “carne torrada”, diferentes do que comíamos em casa… Memória da infância.
          Enfim, atravessamos a maldita ponte para voltar a Pilar, o rio estava mais calmo, abaixo das tábuas… Na entrada da cidade, ainda chegavam romeiros, vindo a pé ou a cavalo para pagar suas promessas a São Severino dos Ramos, cujo nome sugeria-lhes levar galhos de árvore ou folha de palmeira, tal qual a entrada de Jesus Cristo em Jerusalém ou as festividades de Domingo de Ramos.
 

Damião Ramos Cavalcanti

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *