Pensem como vivo a pensar, neste dia 24 de abril, do meu aniversário sobre a morte do irmão, embora mais moço do que eu 14 anos. Como eu disse aos outros irmãos: Ele furou a fila, passou na frente de todos nós. Era um homem desprendido no ter, no vestir, em colecionar sucessos e vitórias. Menos, nas coisas do mundo do saber e do exercício do pensar. Talvez para se distrair, vocacionou-se a jogar e a estudar xadrez, com obstinada curiosidade. Jogava, mesmo com satisfação da vitória lúdica, comparava o tabuleiro como se fosse um teatro no plano da vida, tornando-se conhecido, nas ruas da cidade, nacional e internacionalmente nos campeonatos, como Chiquinho do Xadrez. Seu valor se constituiu bem maior do que os valores transitórios, que, por isso, não são raros no tempo. Morreu como a flor que se destaca no jardim, para, depois sob intensos brilhos do Sol, fenecer. Mas, Sigmund Freud poetizou essa realidade: “Se existe uma flor que floresce apenas durante uma noite, nem por isso é menor o seu esplendor”. Contudo, Francisco de Assis Cavalcanti, com o gosto do Absoluto, refletia sobre nossa natureza finita como caraterística essencial da nossa existência. Ninguém escapa desse xeque-mate: a morte. Como as coisas que acontecem, jogos e vitórias, da sua consagrada imortalidade à inteligência, porém, na fluência do rio que corre para o mar, há o encontro com as ondas aplaudindo. Chiquinho percebeu essa caminhada, avistando a imensidão, aonde o rio corria, quando pensava, nos derradeiros momentos, o perceptível segredo da transitoriedade. Há pessoas, como Francisco de Assis, que, no plano de Deus, deveriam ser menos passageiras, sobretudo, dentre aqueles que desmerecem estar vivendo para os outros. Embora ele, na nossa natureza finita, mereceria continuar vivendo entre nós. Retorno a reconhecer que coisas belas são efêmeras, como os campos revestidos de flores, para logo se transformarem em planícies vazias, também pela tristeza da morte. Francisco demonstrava aceitar o enigma da transitoriedade, sem se comparar com as longevas existências. Morreu Francisco, quem mais fez pela história do xadrez na Paraíba, com repercussões no Nordeste e em centros maiores do país. De uma memória surpreendente, jogava em vários tabuleiros simultaneamente; e sabia posteriormente as jogadas que procedia, como foram os casos de relatar aos jornalistas as vitórias em Brasília, Imperatriz, Fortaleza, Natal, Goiânia, Manaus, Rio, São Paulo e em Nice, na França, em companhia do saudoso e amante do xadrez Frank Lins. Lançou em Recife, com prefácio meu, seu livro Xadrez Para Todos. Por esse objetivo, sua casa era tomada pelos enxadristas e Clube de Xadrez do Miramar; quando se dedicava ao seu Projeto Xadrez nas Escolas de João Pessoa, sendo professor. Vibrava ensinar às crianças, como se estivesse prevendo essas sementes no mundo do xadrez: era seu sonho, o que testemunha o jornalista Fernando Melo. Presente ao aniversariante, porque o iniciei no xadrez. Foi bela trajetória de vida; quando menino, atração dos jogos escolares e da cidade de João Pessoa; no xadrez, criança temida pelos adultos. Menino, adolescente de demonstrada potencialidade e hoje, imortal paraibano no xadrez, cujas cinzas, a pedido seu em vida, foram lançadas no seu preferido mar, na Praia de Cabo Branco, em João Pessoa, bem em frente à Fundação Casa de José Américo. Agora e aqui, 24 de abril, em Frascati, na redondeza de Roma, comemorando a vida com Maria Luiza, Alcione e Milton Marques, lembro que o luto, mais transitório do que a morte, mais certa das certezas, não ofuscará o brilho de Chiquinho, que tanto engrandeceu a História do Xadrez…