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Blog do Vavá da Luz

ASFORA NAS “CINCO BOCAS”

RAMALHO LEITE
ASFORA NAS “CINCO BOCAS”

Tenho repetido a minha preferencia por assuntos e memórias que envolvem pessoas que já deixaram este nosso plano. E justifico: não recebo reclamação, nem dou direito de resposta. Por conta dessas e outras tiradas que destacam meu permanente bom humor ( Graças a Deus) o renomado e estimado confrade Hildeberto Barbosa Filho me traçou um rápido perfil, e definiu: “É bom prosear com ele, ouvi-lo contar causos da cena política ou da loucura de hábitos e costumes das vivências interioranas. Seu repertório me parece inesgotável. Não há nada de grave nem de solene que não se revista de certa leveza ou de certa malícia, se é ele que tem a palavra. Ele é daqueles que cultiva a serenidade, sem artificialismos, a alegria como prova dos nove, e prefere perder a festa a perder a piada”. O meu estimado e saudoso José Maranhão ía mais longe: “ele perde o amigo mas não perde a piada” asseverava, quando ouvia um dos meus chistes.
Sem dúvida, quem já viveu muitos janeiros tem muita história pra contar. Fiz até um livro: “O Poder de Bom Humor” onde reuni pequenas histórias de grandes amigos, colhidos na convivência diária, em mesa de bar ou em plenários solenes. Juarez Farias, um paraibano de Cabaceiras que serviu ao Brasil disse que as histórias ou estórias ali narradas “refletem uma das formas de que se valem os políticos para suportar as dificuldades naturais da carreira do poder” e acrescenta: “ a ironia é, muitas vezes, caminho a associar suavemente humor e crítica, sem a rudeza da apreciação ortodoxa dos fatos e circunstancias”.
O filósofo sertanejo Zé Cavalcanti, porém, dava outra definição à atividade política e grafou: “Se queres ser bem sucedido na política, cultivas duas virtudes: a sinceridade e a sagacidade. Sinceridade é manter a palavra, custe o que custar. Sagacidade é nunca empenhar a palavra, custe o que custar”. O certo é que a política, tida como a arte do bem comum, é uma luta constante pelo poder. E sobre isso, já escrevi: “Para o eterno amante do poder, não é preciso tê-lo. Estar perto já é suficiente”.
Mas voltemos à minha inesgotável reserva de histórias que minha memória ainda guarda. É o que trata o titulo desse texto.
Decorria o ano de 1974 e eu era candidato a deputado estadual pela antiga ARENA, “o maior partido do ocidente” no dizer do seu presidente, o politico mineiro nascido no Piauí, senador Francelino Pereira. Como ex-secretário do município da Capital, fiz desta cidade meu ponto de partida e em cada bairro, em cada rua, armei barraca para pedir voto. Escolas de samba, orquestras de frevo e cantores não tão renomados, ajudavam na tarefa de juntar gente para me ouvir. Meu companheiro de chapa, para deputado federal era Wilson Braga, o cego, como Dorgival Terceiro Neto o chamava, desde a Casa do Estudante da rua da Areia. Naquele tempo, os comícios passavam da meia noite.
O relógio já havia virado para a manhã de um domingo quando, nas Cinco Bocas de Mandacaru, o meu comício recebeu a visita do poeta Raimundo Asfora. Já fora vereador, deputado mas naquele ano, ao que me lembro, não exercia mandato nem estava na disputa de votos. Apenas ajudava na campanha dos companheiros de partido. Governador já escolhido, presidente da República também. Restava eleger um senador e os deputados. Era a primeira vez que via o poeta de perto. Conhecia de nome e fama e, a partir de então, nos tornamos bons amigos e eu seu admirador ilimitado.
Quando o locutor anunciou sua presença, a plateia aplaudiu com entusiasmo. Logo ocupou a tribuna e começou sua belíssima oração. Um silencio respeitoso se fazia ouvir e as Cinco Bocas permaneciam caladas. Mas era preciso apresentar e referir-se ao candidato, que ele estava acabando de conhecer. Foi então que tive meu curriculum enriquecido pela poética asforiana. Asfora me confundiu com o primo Luiz Ramalho, o compositor de “Foi Deus quem Fez Você” e, sendo poeta, demorou-se em elogiar “minha premiada” composição. Não desfiz o engano. Os elogios deveriam servir para angariar mais alguns votos. Deixei o equivoco do poeta me ajudar. Estava aprendendo a ser politico.

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