As covardes acusações vazias
A vida de quem mora em cidades pequenas não escapa dos que se dedicam a falar da vida alheia; saboreia-se qualquer fofoca, desde que não exalte alguma virtude e fale denegrindo, caluniando e, sobretudo, desonrando. Tudo começa com aparente inocência: “Você já sabe da última?”. Não importa como se chame a pessoa linguaruda — se fuxiqueira, coscuvilheira ou mexeriqueira —, ela, sorrateiramente, se mete em qualquer grupo de conversa, ou em todos os assuntos, para verbalizar o insulto contra quem sente ódio, paixão, ciúme ou com quem disputa ideias religiosas ou políticas. As conhecidas, que já bem sabem das suas calúnias, avisam em tom baixo: “Lá vem ela…”. Mas, com os celulares, tal tipo de gente está, ao mesmo tempo, nas pequenas, médias e grandes cidades, ou até mesmo nos pacatos lugares, como o campo e o mar. E assim prospera essa prática de muito tempo atrás: caluniar, difundir acusações levianas e vazias, sem conseguir citar um fato que comprove a inverdade ou a dita mentira.
Curioso é existir uma curta frase, dita e repetida nos grupos sociais, políticos e religiosos como se tivesse sido ensinada, inclusive por pessoas até então consideradas bem informadas. Uma frase cunhada para se tornar estereotipada e de resultado político previsível, usada como se fosse uma jaculatória para destruir o adversário político. Assim, tal fenômeno nas conversas ou nas redes sociais — o ataque vazio para destruir a reputação, definido como character assassination — vem substituindo o debate construtivo, com pública transparência, que discuta a boa política das coisas públicas. Mas, preferidas a isso, sempre ocorrem covardes acusações vazias…
Nos Estados Unidos, muito se exercitou a prática da mentira política, o que custa poucos dólares… Joseph Patrick Kennedy, patriarca dos Kennedys, filho e neto de imigrantes católicos vindos da Irlanda, foi vítima da acusação de “ladrão”, por inveja de sua fortuna e de seu êxito político. Usando esse costume, seus filhos prometeram “combate à corrupção” como programa político. E por isso esses filhos, John e Robert Kennedy, foram assassinados pela máfia corrupta… Quanto ao pai, apesar de inúmeras “acusações vazias”, nada na sua biografia comprovou o objeto dessas controvérsias. Vários políticos americanos foram acusados como ele, a exemplo de Martin Luther King Jr. na sua luta contra as armas, contra a guerra no Vietnã e pelo bem-estar social dos pobres. Ele era vigiado e difamado pelo FBI, chefiado por J. Edgar Hoover, que o incriminou através de investigações e acusações sem fundamento. Enfim, o pastor foi morto em 4 de abril de 1968, em Memphis, aos 39 anos, após essas acusações. Falsas acusações sempre levam à violência.
No contexto do lawfare, relembro as “acusações falsas de Carlos Lacerda (UDN)” contra o estadista Getúlio Vargas, que motivaram seu suicídio; ou Juscelino Kubitschek, memorável idealizador e construtor de Brasília, acusado em vários IPMs a partir de 1964, sem prova alguma, para ter seus direitos políticos cassados, e que depois morreu em um desastre de automóvel até hoje sem explicação… João Goulart, quando iria iniciar as Reformas de Base, foi acusado de “enriquecimento ilícito” e, sem provas da acusação, foi destituído da Presidência por um golpe de Estado.
Há fatos históricos de caluniadores e de caluniados, como o de Júlio César que, depois de acusado em Roma, foi apunhalado 23 vezes pelos senadores e caiu morto na Cúria de Pompeu. Sócrates, filósofo, acusado de perverter a juventude de Atenas, foi condenado a beber cicuta. E Jesus Cristo, caluniado pelos sacerdotes do Templo, que induziram a “turba de Jerusalém” a preferir Barrabás a Jesus, crucificando-O, de propósito, entre dois ladrões… Quem mais seria inocente? Thomas Morus?
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