Ao caminhar nas declinações, nos casos dos textos em latim, ensinados pelo professor e historiador belga, hoje baiano, Eduardo Hoornaert, Roma ocupava seu império e o espaço que lhe é devido, porque poucas cidades do mundo vivenciaram 3 000 anos de civilização ininterrupta com tal santuário de historicidade, e por isso, de várias formas chamada para definir sua grandeza, sendo a mais adequada a recentemente que eu li nos tapumes das suas recuperações históricas nos fóruns e na Ara Pacis Augustae: Caput Mundi, Roma, “cabeça do mundo”, em todos os sentidos.
Despertei, nesses textos em latim, a curiosidade sobre lutas políticas, conquistas, origem da república, direito romano e filosofias absorvidas da Grécia e ideias colhidas em outros mundos. Mas, no aspecto político, o início de uma organização social preocupada em que seu dirigente maior não tivesse suas prerrogativas de “rei”, atribuído isso a César, para que ele não tivesse o poder por muito tempo, o que César negava peremptoriamente, não deixando de ser um líder popular, não demagógico e não merecedor dessa acusação maquinada pelos senadores opositores. Daí a trama política, resultando no assassinato, que se tornou ponto alto da História, atraindo minha especial atenção. Admiro César na História de Roma.
Mas, critico-me porque, ao morar quatro anos em Roma (1966 a 1970), não cheguei ao local exato ou onde precisamente teria sido o locus desse crime, mais atraído pelas ruínas do Forum Romano, ou onde também teria funcionado o Senado, ou precisamente as lembranças dos gansos do Capitólio, salvando, na calada da noite, a cidade das tropas invasoras, lugares das convivências senatoriais.
Agora, dediquei esses dias de abril, depois dos idos de março, para acompanhado de Milton Marques, Alcione e Maria Luiza, precisarmos, com mapa e estudos em mãos, e apontarmos onde teria sido assassinado e caído morto Júlio César. Curioso que o local encontrado foi exatamente quase diante do frequentado, por mim, Restaurante Delfino, no Largo da Torre Argentina, na época de estudante. O Delfino estava fechado, mas aberta à história estava a localização onde foi a Cúria de Pompeu, onde o Senado estava se reunindo temporiamente, por estar sua sede oficial, na Cúria Hostilia, sofrendo reformas. Mostrou Milton a árvore pinus domesticus, com que se faz marco da queda de César, protegendo-se apenas com a túnica ensanguentada, perfurada por 23 punhaladas, tombando, ironicamente, aos pés da estátua de Pompeu. Teria sido morto por 23 senadores, seus opositores, todos sob a liderança de Marco Júnio Bruto e Cássio Longino, que, todos, por sentença, um a um, posteriormente morreram, em exílio, em batalha ou em casa, vingança de uma prometida vendetta de Augusto, sobrinho-neto, filho adotivo e sucessor de César.
O local é esse, mas por qual razão teriam assassinado César? Páginas e páginas escreveram três razões principais. A primeira e a mais negada teria sido a de impedir César se tornar “rei de Roma” ou assumir a forma absoluta de poder; a segunda, frear a arrogância de César, que não nomeava os familiares dos senadores, e sim amigos e aliados provincianos, quebrando assim a dinastia da aristocracia romana; e enfim, a terceira repete um pouco a primeira, respondendo o insulto de Marco Antonio que já teria feito a coroa real para César, que pretenderia, como se fosse um rei, prolongar-se no poder, como un dittatore sempre in guerra, longe de Roma, longe da República…